João/Thomaz #28

“Now I don’t want to raise your expectations. […] High expectations are the way to frustration; low expectations are the way to happiness.”

Bettina Sommer, minha professora de mitologia nórdica.

                                          Pois que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos?

Rainer Maria Rilke, “Primeira Elegia” (Trad. Dora Ferreira da Silva)

Querido Thomaz,

Berlim é monumental.

Eu tenho que começar confessando que não esperava tanto da cidade. Quando minha amiga me convidou à viagem que fiz nos últimos quatro dias, não aceitei sem hesitar bastante. Mas eu aceitei. E a surpresa que senti olhando da janela do primeiro ônibus que peguei em Berlim foi a feliz consequência, da qual nunca vou me esquecer.

É claro que sempre vamos para o lugar com muitas histórias, músicas e imagens que já pré-constroem nossa impressão dele. Eu fiz a viagem para lá consciente disso, refletindo sobre o que a cidade representava para mim à distância.

Eu acredito que Berlim era para mim a cidade onde aconteceu a dramática batalha final da maior guerra de todos os tempos. Eu tinha ouvido tanto sobre o Holocausto, e a Segunda Guerra Mundial, e a Guerra Fria, e a divisão da Alemanha em dois blocos, e os traumas daquelas pessoas e minorias que não consegui deixar de respirar certa tensão no ar durante todo o tempo de minha curta visita. No entanto, andando pelas ruas de Berlim, não fossem as placas comemorativas e homenagens históricas, dificilmente se diria que a Alemanha perdeu essa guerra.

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É claro que o que eu não havia lembrado era que, obviamente, do ponto de vista humanitário, não houve lado vencedor na maior guerra de todos os tempos (que não é a “Segunda Guerra Mundial” mas a guerra entre Alemanha Nazista e União Soviética por si só); e que os traumas, por mais que devam ser respeitados e não esquecidos, já impediram as vítimas da Guerra e da Tirania de seguir em frente por tempo demais.

Memorial Soviético da Guerra

Memorial Soviético da Guerra

Homenagem às Vítimas da Guerra e da Tirania

Homenagem às Vítimas da Guerra e da Tirania

Diferente dessa pré-impressão de Berllim, outras vieram à minha mente como que resgatadas pelo inconsciente e não buscadas. Foi assim que algumas vezes me peguei ouvindo em falso a Tocata e Fuga em Ré Menor de Bach na Berliner Dom e “Another Brick in the Wall, pt. 2” quando visitei o Memorial do Muro de Berlim. Pré-selecionadas ou não, essas obras de arte se inscrevem lindamente na cidade. Fico curioso de saber se você se viu procurando discos voadores no céu de Londres.

Berliner Dom

Berliner Dom

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Memorial do Muro de Berlim

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Nenhuma dessas obras, no entanto, representa tão bem para mim o ar intimidador da beleza de Berlim como o início da Primeira Elegia de Duíno de Rilke. Talvez seja isso mesmo que apaga a derrota de 45: as celebrações do triunfo do Império (Prússia ou Alemanha ou Cristianismo) são tão terrivelmente belas que parecem apontar difusamente para algo além de suas motivações mundanas. Para os Anjos, talvez.

De fato, as estátuas de anjos olhando inclinados, impassíveis dos pináculos dos palácios para as pessoinhas lá embaixo são uma marca da cidade. Temos que agradecer a Wim Wenders por sua visão mais esperançosa desses anjos, que nos protegem e nos mostram que, no mundo, uma existência espiritual sozinha também não é tudo. E Berlim sabe disso: já tinha experimentado antes de ir para lá, mas também lá, o prazer gloriosamente humano da cerveja alemã e a capacidade incrível de se divertir da gente de lá.

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Talvez muito do que está por trás de nossas jornadas seja a busca de uma síntese única desse jogo de pingue-pongue do nosso olhar entre a Terra e o Céu. E eu acho que encontrei um vislumbre dessa busca nas pinturas de Caspar David Friedrich, o que me leva a comentar a parte mais impressionante dessa viagem: os museus de Berlim. Os guias dizem que são mais de duzentos, então vou me limitar aos três que visitei: Pergamonmuseum, Bode-Museum e Alte-Nationalgalerie.

O primeiro se concentra na restauração e reconstrução de grandes estruturas arquitetônicas antigas e é resultado da extensiva, ampla e respeitada pesquisa arqueológica alemã dos séculos XIX e XX. Mostra um pouco das referências mais antigas para a grandeza urbana de Berlim. Ver essas instalações tão bem feitas nos dá uma melancólica sugestão do caminho que a pesquisa no país seguia antes de tornar-se vítima do imperialismo do Estado.

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O Bode-Museum, de nome engraçado para nós, expõe mais algumas daquelas referências, desta vez passando pela Antiguidade Tardia (principalmente o Império Bizantino), pela Idade Média e pelo Renascimento. Sua impressionante arquitetura barroca é testemunha disso. É interessante notar como a Alemanha se posiciona, não só geograficamente, no encontro entre as renascenças italiana, francesa e holandesa.

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Na Alte-Nationalgalerie o foco é a arte alemã a partir da modernidade, mas não se excluem obras daqueles países que, é claro, sempre servem de referência. Aqui é que se encontram as obras de Friedrich e do meu caro Romantismo Alemão. Passei mais de uma hora nessas salas que, como disse, pareciam tocar uma busca muito importante para mim.

Mulher numa Janela, Caspar David Friedrich (1822)

Mulher numa Janela, Caspar David Friedrich (1822)

Árvore Solitária, Caspar David Friedrich (1822)

Árvore Solitária, Caspar David Friedrich (1822)

Ruínas de Eldena, Caspar David Friedrich (1825)

Ruínas de Eldena, Caspar David Friedrich (1825)

A moça inclinada, em cuja posição inevitavelmente nos colocamos, olha da janela de casa para o mundo exterior; o grande carvalho, sugestivo da Yggdrasil, sai da terra, atravessa as montanhas e toca o céu com seus últimos galhos; pessoas simples vivem sua vida simples dentro das ruínas de algo poderoso, antigo, grande e sagrado (este último me levou às lágrimas, literalmente). Diferentes expressões da proximidade inalcançável entre o nosso mundo e algo além dele. Não esquecendo a apropriação nazista desse romantismo, me pergunto se o apelo que essas imagens têm para mim é um defeito, um capricho adolescente. Acho que posso terminar deixando essa pergunta para você. O que me diz?

De qualquer forma, Berlim foi uma viagem incrível.

Nascimento da Lua sobre o Mar, Caspar David Friedrich (1822)

Nascimento da Lua sobre o Mar (detalhe), Caspar David Friedrich (1822)

Com carinho,

João G.

PS: Sobre nossa discussão anterior, acho que sua resposta combinada com o item 5 desse artigo também me fizeram repensar a ideia do “fim” onipresente (aliás, o artigo todo é muito interessante, apesar do tom “soco na cara”). http://www.cracked.com/blog/5-popular-beliefs-that-are-holding-humanity-back/

Em resposta a: Thomaz/João #27

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Thomaz/João #27

João Guilherme,

Sua última carta me provocou uma espécie de vertigem. Vocês nos conduziu voando até o fim do trampolim mas interrompeu o fluxo de suas palavras no momento do salto. Aquilo que você chamou de lacunas nos textos fundadores também se encontra na sua carta. Tentarei, então, construir uma civilização nessas lacunas.

Começo falando sobre esse sentimento de ruína presente no seu parágrafo sobre a glória Viking. Ele me lembrou aquele gênero poético chamado de Ubi Sunt, que tem praticantes tão ilustres quanto o poeta francês François Villon e exemplos tão conhecidos quanto a canção universitária que começa pelos versos célebres Gaudeamos igitur iuuenes dum sumus.

Esse gênero teve vida fértil, não por acaso, na poesia anglo-saxônica, e Tolkien “reciclou” um de seus exemplares, The Wanderer, sobre o qual Borges fala no seu Curso de Literatura Inglesa, para transformá-lo em uma canção rohirrim que versa belamente sobre a passagem do tempo e o desaparecimento das coisas passadas.

Where now the horse and the rider? Where is the horn that was blowing?
Where is the helm and the hauberk, and the bright hair flowing?
Where is the hand on the harpstring, and the red fire glowing?
Where is the sping and the harvest and the tall corn growing?
They have passed like rain on the mountain, like a wind in the meadow;
The days have gone down in the West behind the hills into shadow.
Who shall gather the smoke of the dead wood burning,
Or behold the flowing years from the Sea returning?

O cancioneiro popular brasileiro, a seu modo, também se aproveita dessa estrutura, indicando porém identidades flutuantes para o “anjo exterminador” responsável pela efemeridade das coisas.

Cadê o toucinho que estava aqui? O gato comeu.
Cadê o gato? Está no mato.
Cadê o mato? O fogo queimou.
Cadê o fogo? A água apagou.
Cadê a água? O boi bebeu.
Cadê o boi? Está amassando o trigo.
Cadê o trigo? A galinha espalhou.
Cadê a galinha? Foi botar o ovo.
Cadê o ovo? O padre bebeu.
Cadê o padre? Foi rezar a missa.
Cadê a missa? Já se acabou.
Cadê o pessoal que estava na missa?
Passou por aqui, por aqui e por aqui…

Tudo o que passa dá lugar a algo novo. Ah, a sabedoria popular…

Pensando nisso, não posso evitar de encarar um pouco criticamente meu próprio olhar pregresso sobre o “fim” da nossa civilização. Lendo recentemente a História da Literatura Ocidental do Carpeaux (uma leitura que deve durar anos, se é que acabará um dia), deparei-me com um texto sobre a relação entre nossa civilização e a Antiguidade. Ele lembra, nesse texto, que os intelectuais de todas as épocas afirmaram o fim do mundo. Penso naquela imagem de Adorno sobre o “grande hotel abismo”, um coletivo de intelectuais e acadêmicos “hospedados” à margem do abismo (como a pessoa que dança no fragmento de Kierkegaard), observando com tristeza e algum desprezo o “fim do mundo”.

No mesmo texto, Carpeaux demonstra como, entre a Antiguidade propriamente dita e a modernidade, nossa civilização passou por uma serie de renascenças (praticamente uma a cada século) nas quais se tentava resgatar o ideal da Antiguidade Clássica, mas que na verdade se tratava de buscar aquilo que era próprio ao espírito de cada época.

Acredito que esse processo descreve um pouco melhor o fluxo humano através do tempo. Gaudeamus igitur dum senes sumus.

Thomaz

Em resposta a João/Thomaz #26

João/Stefano #10

Copenhague, 01/10/2013

Querido Stefano,

Sua última carta chegou carregada não só da melancolia regular do exílio, mas também de uma certa urgência, um clamor por socorro. Por isso, achei adequado te mandar alguns recados por outros meios antes de responder por aqui (porque estas respostas requerem uma certa elaboração e um certo tempo). Fizemos bem em nos comunicar dessa forma, porque eu também estou cheio das mesmas perguntas. Conversando assim, acabamos por descobrir algumas coisas juntos, que vou tentar recapitular e desenvolver um pouco aqui.

A verdade é que eu gostaria muito de te dar as respostas certas a esses dilemas. Mas eu não as tenho para mim mesmo. O que posso te oferecer são algumas perguntas. Nós sabemos o que as perguntas fazem conosco. Posso me ver, e te ver, passando a odiá-las, a desejar que elas não existissem. Mas elas estão aí e nós não podemos fazer muita coisa se la vie est absurde.

O que segue é a minha tentativa de ordená-las aqui numa sequência compreensível.

– A nossa entrada na faculdade do Brasil poderia também ser vista como um momento de abandono, de falência social. O que fez com que ela fosse o contrário disso? O que os amigos daqui têm de diferente (pior?) do que aqueles que nos eram desconhecidos quase quatro anos atrás?

– O que, de tudo aquilo que me impede de me sentir em casa aqui, é contornável?

– A (nossa) espiritualidade brota de algum lugar em específico ou ela simplesmente existe, independentemente da nossa vontade, reconhecimento ou consciência?

– Quando eu me (des)encanto com alguma coisa, quem ou o que despertou esse (des)encanto?

– (Essa partiu de você) será que algum dia resolveremos essas coisas?

Talvez eu tenha uma facilidade para lidar com a desesperadora inquietação que essas questões nos provocam porque eu sempre fui um ser falido socialmente. Durante os primeiros vinte anos da minha vida, eu não quis fazer nada a respeito da angústia de tentar conciliar meu bom senso e minhas incertezas imateriais com um ambiente evangélico bastante peculiar e crescentemente fundamentalista. Quando a conciliação me pareceu impossível e indigna, eu resolvi abandonar a minha igreja. Passados alguns meses, eu e meus amigos de infância percebemos, silenciosamente, que vai ser quase impossível evitar nossa alienação e estranhamento mútuos.

Minha despedida poderia ser a minha carta de condenação à solitária.

Queria te contar um pouco sobre uma das figuras que hoje mais me inspiram. Meu pai cresceu num ambiente incomparavelmente mais opressivo que o meu: e ainda pior, com escassos recursos materiais. Mas ele tinha um sonho e uma boa professora de primário. Contra o sistema de educação, contra muito bullying e contra as dificuldades e a competição que alguém que vem de uma família pobre do interior sempre tem que enfrentar, meu pai conseguiu ser forte e ir bastante longe na carreira com que sonhava.

E então, por causa de um problema no coração, ele teve que desistir de tudo.

Eu nunca entendi, mas sempre admirei, o fato de meu pai ter passado pelo menos os cinco anos seguintes sem algo estável em que se agarrar. E ainda assim ter conseguido recolher os cacos, recomeçar e dar uma existência digna a mim e aos meus irmãos.

Isso é um pouco da história do meu pai. Não posso esquecer da minha mãe, que nasceu numa família muito grande, e também com poucos recursos, e perdeu o pai com cinco anos. Às vezes, junto com as muitas irmãs, ela lembra do tempo em que tinham que pular refeições para conseguir levar algum dinheiro para casa.

Esta é uma carta bastante íntima e estou com medo de não fazer justiça às histórias e às pessoas sobre as quais estou falando. Eu morei mais de vinte anos com o meu pai e e com a minha mãe me acostumei com a presença deles sob o mesmo teto. Foi só quando vim pra cá e fiquei diante da minha própria sub-vida, da minha incapacidade de viver, que fui reler mentalmente as histórias que escrevi acima. Sob uma certa luz, podem parecer histórias tediosas. Mas a verdade é que eu sempre vivi na mesma casa que as duas pessoas mais incríveis do mundo.

Ou melhor, quatro.

Eu vi meu irmãozinho crescer diante dos meus olhos. Quando as coisas acontecem assim, temos um curso extensivo de como enxergar a preciosidade daquela vida e daquela pessoa. Nós nunca perdemos a oportunidade de dizer um ao outro que nos amamos; mas nem precisaríamos, porque já está no olhar. Eu sempre achei que minha relação com minha irmã mais velha era diferente, mais complicada, mais cheia de atritos e de pontos cegos.

Foi na tarde em que visitei os sítios arqueológicos que percebi que não era bem assim. Na volta a Copenhague, de súbito e aparentemente sem motivo algum, encontrei-me chorando de saudade da minha irmã. Só da minha irmã. E não só do tempo em que brincávamos nas nossas casinhas pequenas em Itu e Mogi-Guaçu, infinitas e belas como palácios reais, mas também de quando tínhamos que dividir o carro um mês atrás e de tudo que aconteceu no meio. Foi forte, verdadeiro e inesperado, e eu tive que esconder o rosto porque não conseguiria explicar o que estava acontecendo a quem perguntasse.

Tudo isso poderia transformar meus dias em melancolia e saudade, mas não tem sido assim. Copenhague sempre vai ter um lugar especial no meu coração, pois foi o lugar em que eu percebi que as minhas ideias anteriores sobre onde o valor do mundo reside sempre tinham sido estimativas pessimistas. Aqui, sozinho na companhia da minha própria mediocridade, vi que por toda a minha vida talvez não tenha sido metade do ser humano que cada um dos meus familiares é; mas que esse cenário não vai melhorar se eu não ajudar a mim mesmo.

Agora que já fui tão longe, não sei por que não dizer tudo. Eu acho que essa é a maior conquista que alcancei no último mês, quiçá em toda a viagem: aprender a enxergar a vida e a história nos olhos de cada um. Eu ainda estou esperando a resposta da minha permissão de residência, e passo os dias assombrado pela possibilidade um carimbo de rejeição na caixa de correio. Mas nem mesmo esse acontecimento eu poderia chamar de fracasso. Porque agora, diferentemente do joão de julho, este que vos fala não acredita mais em usar os reveses para justificar apatia e desânimo, mas sim em juntar os cacos e seguir adiante.

É irônico que a primeira carta meio auto-ajuda do blog parta de mim, o dono da vida mais patética dentre nós três. Eu poderia tentar fazer uma versão oposta da sua lista de contrastes: aqui eu saio no fim de semana, aqui eu olho nos olhos das pessoas quando converso com elas, e ouço de verdade suas histórias, mas acho que a lista pararia aí. Porque se você vier me visitar, acho que você vai ter a impressão de que encontrou o mesmo João Guilherme de antes, só um pouco mais resistente ao frio.

Eu também, como sempre, não sei fazer piada, me sinto meio estranho no meio do grupo e falo coisas óbvias e sem graça. Mas eu tive paciência, alguns outros tiveram paciência, e eu acabei fazendo amigos. E no final das contas, existia sim algo que valia a pena em mim, nas pessoas e na cidade. Eu não tenho nada a ensinar a alguém como você. Só acho, e aposto às cegas, que ainda tem muita coisa passando na frente dos seus olhos em Paris que você não está se permitindo, ou arriscando, enxergar. Talvez o problema não seja ir de um lugar pro outro ou fazer ou dizer a coisa certa mas sim acertar o foco.

Sinceramente como quase nunca antes,

João G.

P.S.: Gostei muito do cartão postal, você bem sabe. Já pensou bem no que me disse?

Em resposta a: Stefano/João #9

Stefano/João #9

Sorbonne, 24.09.13

João,

Eu me questiono também o motivo de ter saído. Curiosamente, quando vim, parecia bastante claro, mas o lento correr dos dias tem me mostrado que isso é exílio e não intercâmbio. Talvez eu ande meio triste e isso impregne na minha roupa e na minha escrita de uma forma muito além do que eu possa prever, dado mesmo a minha inclinação para o exagero, o sentimentalismo e o drama. Mas reitero: isso é exílio. Não necessariamente político e doloroso como os ocorridos em épocas de guerra e de ditadura, mas não é definitivamente o oposto. Não sei, mas essa cidade não me encanta. É claro que, por fotos, me encantava e, obviamente, existe deslumbramento nos pontos turísticos. É claro. Mas não há encantamento. E parece-me curioso isso: não estar apaixonado no começo e passar pelo processo de desapego e saudade ao longo dos meses – até o ponto de suplicar a volta para casa.

Não chego ainda a suplicar a volta, mas olho para as pessoas que passam ao meu redor em bandos e penso: eu não sou parte de tudo isso. Eu, por outro lado, sinto-me dentro de uma esfera nauseante e claustrofóbica em que existe espaço para mim – e somente. Sinto a despatriação de mim mesmo ocorrendo lentamente. Aqui, meu caro, eu sou triste. Eu não falo alto, eu não sorrio fácil e nem sequer sei fazer piada. Aqui eu sou tímido, almoço sozinho e as poucas vezes que tenho alguém comigo geralmente não sei ser menos gentil que um livro de idiomas ensina e mais espontâneo do que uma fita cassete pronta a recomeçar o curso intensivo de verão. Mas isso me assombra: aqui, eu sou triste. Eu tenho olheiras, como pouco, falo pouco e uso fones de ouvido. Eu nunca usei fones de ouvido como forma de espantar pessoas, mas aqui eu uso. Aqui eu ando constantemente sozinho, ouvindo estranhos e desenhando rostos no metrô. Escrevo pouco e sinto saudade o tempo todo – a ponto de chorar em museu.

Um amigo meu, que aqui mora faz anos, me perguntou se Paris já havia sugado as minhas energias. Eu achei curioso a princípio. Respondi (e um pouco mentindo) que Paris ainda me fazia bem. Ele me disse algo, então, que agora entendo: é melhor que você seja turista sempre, que não more no centro e só passe por Paris todos os dias. É melhor que sua casa seja em outro lugar, talvez assim você tenha uma impressão menos angustiante dessa cidade. Paris é apertada, quieta, triste, cinza. Paris é linda também, mas acho curioso que as únicas cores que eu veja estejam nas calças compridas, nos macarons e nas flores dos jardins. O amor se esfriará no coração de muitos, penso muito e constantemente. Paris é, de fato, uma cidade para ser contemplada, visitada, deixada. A permanência fará, hora ou outra, na feição os lábios tristes de alguém que lê e apenas lê nos metrôs. Ninguém se apaixona quando novas pessoas entram no vagão. Contempla-se apenas.

E em mais um dia de respostas cinzas, recebi pelo correio seu cartão postal. No meio do meu silêncio reiterado, fiquei brincando de olhar o céu pelo buraco do papel. E percebi com espanto: por trás de tudo,o por-do-sol ainda não é cinza. O dedo da última carta, pra mim, aponta para um lugar em que o cinza é só uma lembrança de um exílio. Ou de um Exílio. É, aqui eu sou triste.

Com açúcar, com afeto,
S.

João/Thomaz #26

Querido Thomaz,

Sua última carta foi bastante surpreendente. Por um lado, você reconhecidamente ignorou os meus relatos da carta anterior – o que, é claro, absolutamente não levo a mal; pelo contrário, não consigo deixar de esboçar um leve sorriso de satisfação nas frequentes ocasiões em que nossas correspondências escapam do esperado. Por outro lado, o impacto do seu texto em si, em especial nas palavras finais, deixou bastante claro que a dimensão dessa experiência de leitura reduz as minhas andanças a trivialidades turistóides.

Devo dizer, no entanto, que as minhas últimas experiências aqui dialogam profundamente com o que você expressou a respeito dos textos bíblicos e homéricos. Tenho observado o “fim de nossa civilização” de muito perto, embora não chegue a estar numa de suas antigas capitais. Chamamos de nossa civilização e nossa cultura um conjunto de pesados monumentos em grande parte estabelecidos aqui no velho continente e que hoje se encontram rachados e cobertos de musgo, quando não já em pedaços. Não obstante eles ainda sejam muitos, e pesados, e ainda estejam espalhados por toda parte, é possível sentir o peso constrangedor de sua inadequação no ar da cidade e em diversos incidentes simbólicos.

Estágios de existência

Aqui é interessante levar em consideração a posição dos nórdicos nesse amálgama de tradições matriciais de nossa cultura. Eis um povo que provocou uma impressão vultosa e inconfundível na história! Eis os navegantes, os verdadeiros descobridores da América! A Guarda Varegue de Constantinopla, os príncipes da Rússia de Kiev! Os vikings, os piratas e saqueadores, os vendedores de escravos das feiras árabes! Os escaldos, os profetas das sagas e das Eddas! No entanto, onde encontrá-los agora? Tenho relatado minhas visitas a museus e sítios arqueológicos aqui e em outros lugares, e a única sensação que eles de fato me imprimem é a do desaparecimento. E o pouco que podemos enxergar deles parece ser tão importante para a auto-imagem dos habitantes deste pequenino reino…

Ruínas de Trelleborg, fortificação circular de propósito desconhecido da Era Viking. Foi usada por 30 a 40 anos e então abandonada.

Ruínas de Trelleborg, fortificação circular de propósito desconhecido da Era Viking. Foi usada por 30 a 40 anos e então abandonada.

Mesmo os poemas islandeses de Snorri Sturluson transparecem essa precariedade. Neles, como se sabe, não podemos caminhar duas estrofes sem encontrar: a) uma referência histórica completamente obscura; b) uma escandalosa contradição; ou c) um capricho moral ou estético do escritor ou do copista. A frase mais abundante nas minhas notas sobre o Gylfaginning, o terço inicial da Edda em Prosa, e sobre a Voluspá, a profecia de criação da Edda Poética, é: “Nobody knows.

Essas características também são verdadeiras a respeito da Bíblia e da Ilíada, no entanto; e nesse sentido, acho que estudar a literatura nórdica pode ser uma experiência bastante iluminadora. Parece-me que o caráter fundacional desses textos reside tanto nas suas lacunas como nos seus relatos, digamos, objetivos. A linguagem metafórica sempre é, de certa perspectiva, um contrassenso. E o que chamamos na literatura de Estranhamento pode estar fortemente ligado à construção de mentalidades mesmas, talvez até de uma cultura.

Tentativa de reconstrução histórica do processo de fabricação de navio de guerra viking em Ladby, Funen.

Tentativa de reconstrução histórica do processo de fabricação de navio de guerra viking em Ladby, Funen.

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Nota não-relacionada: Quando você terminar de ver o penúltimo episódio de Breaking Bad, leia esta citação de Kierkegaard:


Alas, it is terrible to see a person rushing headlong to his own downfall; it is terrible to see him dancing on the edge of the abyss without suspecting it; but this clarity about himself and his own downfall is even more terrible. It is terrible to see a person seek solace by plunging into the vortex of despair, but even more terrible is the composure that in the anguish of death a person does not call or scream for help, “I am going down, save me!” but calmly wants to be a witness to his own perdition. […] What dreadful double-mindedness to want in one’s perdition to derive a kind of advantage from the fact that the good exists, the only thing one has not willed!

— Upbuilding Discourses in Various Spirits, trans.  Howard V. Hong & Edna Hong, Princeton Univ. Press, 1993 (p. 33-34).

[É aterrorizante ver uma pessoa que avança disparada para sua própria ruína; é aterrorizante vê-la dançando à beira do abismo sem suspeitá-lo; mas esta lucidez sobre si mesma e sobre sua própria queda é ainda mais terrível. É terrível ver uma pessoa mergulhando no redemoinho da aflição em busca de refúgio, mas ainda mais terrível é a compostura com que, na angústia da morte, uma pessoa não clama por ajuda, “estou afundando, salve-me!” mas tranquilamente quer ser testemunha de sua própria perdição. Que terrível vacilação de espírito querer de sua própria perdição deduzir um tipo de ganho pelo fato de que o bem existe, a única coisa que não se deseja!]

Med venlig hilsen,

João G.

Em resposta a: Thomaz/João #25

Thomaz/João #25

Querido João,

Finalmente dei início ao meu projeto de longa data de ler a Bíblia do início ao fim. Tenho-o executado sem pressa, em paralelo a outras leituras “seculares”. Estou utilizando a Bíblia do Peregrino, uma fantástica edição de estudo belamente traduzida e anotada, e após cada livro  leio o capítulo sobre ele no Guia Literário da Bíblia, organizado por Robert Alter e Frank Kermode. Terminei o Gênesis no domingo – como disse, estou sem pressa.

Como já havia dito na última carta, também estava lendo a Ilíada, em uma tradução também muito boa, e também acabo de concluir a leitura. Não pude deixar de notar diversos paralelos entre as duas obras. É clássico o ensaio de Erich Auerbach comparando a narrativa do Antigo Testamento a Homero (“A Cicatriz de Ulisses”, o primeiro capítulo de Mimesis, as you may remeber), ensaio que não li e ao qual não pretendo me equiparar. No entanto, gostaria de tecer alguns comentários.

A primeira coisa que salta à vista são alguns paralelismos formais – pontuais, talvez, mas muito interessantes. O primeiro e mais óbvio deles são as repetições de fórmulas, situações e cenas, marca provável de uma herança oral em dois textos que, como seu aparato de notas e comentários, o qual não sou capaz de reproduzir aqui, provou muito bem, dependem no entanto fortemente da escrita. O segundo, muito interessante, e também de raiz oral, é a construção circular de cenas, que a “Introdução ao Antigo Testamento” (de Robert Alter) do Guia Literário chama de “repetição de reatamento”, e a “Introdução” (de Peter Jones) da Ilíada de “composição anular”, isto é, uma proposição inicial de ação interrompida parenteticamente e retomada para dar prosseguimento à narrativa. Tomo os exemplos das introduções (grifos meus). Na Ilíada:

Não passou despercebido ao filho de Atreu, Menelau dileto de Ares,/ que pelos Troianos fora Pátroclo subjugado na refrega./ Atravessou as filas dianteiras armado de bronze cintilante/ e pôs-se plantão por cima dele, como uma vaca que deu à luz/ pela primeira vez, junto a sua vitela com lamentosos mugidos:/ assim em volta de Pátroclo se colocou o loiro Menelau. (XVII.1-6)

E na Bíblia (peço perdão por não ser um exemplo do Gênesis, mas não tenho como procurá-los agora):

Então todas as tribos de Israel vieram ter com Davi em Hebrom e disseram: “Vê! Nós tomos dos teus ossos e da tua carne. Já antes, quando Saul reinava sobre nós, eras tu o líder de Israel na batalha. E o Senhor te disse: ‘És tu que apascentarás o meu povo Israel e és tu que serás chefe de Israel'”. Todos os anciãos de Israel vieram, pois, até o rei, em Hebrom, e o rei Davi concluiu com eles um pacto em Hebrom, na presença de Iahweh, e eles ungiram Davi rei em Israel. (II Samuel 5, 1-3)

Esse recurso permite incluir informações, desenvolver imagens e até mesmo reelaborar ou refocar a ação, como no caso de II Samuel, em que há uma evolução entre tribos de Israel/Davi e anciãos de Israel/rei.

Embora a poesia grega caminhe no sentido da elaboração e a hebraica no sentido da concisão, ainda assim é possível apontar ainda um outro paralelo formal no aspecto “objetivo” (feitas todas as ressalvas a esse termo) de ambos os textos. Com frequência na Ilíada, e quase sempre no Gênesis, o narrador não emite juízos sobre seus personagens. É com um estilo direto que se narra a ação, e o que na Ilíada pode muitas vez ser confundido com um juízo aparece somente em falas de personagens ou em epítetos e símiles que mais parecem a intromissão da voz de um personagem junto à voz do narrador.

Gostaria ainda de apontar uma última coincidência, que me permita avançar para o espectro temático-ideológico dos dois textos. Tanto a Ilíada quanto o Gênesis são obcecados por genealogias! As listas de antepassados e de gerações abundam. No épico grego, a genealogia invocada por cada personagem pretende reafirmar a nobreza dele, e explicar as relações entre os diferentes “atores” das situações. No caso do texto bíblico, as listas de gerações parecem, como é sugerido por J.P. Fokkelman, que escreve o ensaio sobre o Gênesis no Guia Literário, manter em movimento e levar adiante a ordem de Deus para que seu povo seja fecundo, multiplique-se e oculpe a terra. Trata-se de uma elaboração formal desse princípio de fecundidade, herança, descendência e, enfim, fraternidade.

Com efeito, a fraternidade – isto é, as relações entre os homens, que fundam as sociedades, as culturas, as civilizações – é o assunto principal do Gênesis – sob a luz da ação Divina -, ao menos no ciclo patriarcal que se segue ao Dilúvio. E também o é na Ilíada, embora sob uma lente muito mais focada, que observa de perto uns poucos personagens – Aquiles, Agamêmnon, Pátroclo, Heitor – e as dinâmicas entre eles.

No início do canto VI da Ilíada, Diomedes, filhou de Tideu, que naquele momento é o mais valoroso dos guerreiros gregos em batalha (pois Aquiles se retirou irado) depara-se com Glauco, aliado troiano da Lícia, e lhe pergunta: “Quem és tu, valentão, dentre os homens mortais?” O que ele deseja é saber se o oponente é um homem, e não um deus, contra quem não poderia lutar. A resposta de Glauco é clássica:

Tidida magnânimo, por que queres saber da minha linhagem?/ Assim como a linhagem das folhas, assim é a dos homens./ Às folhas, atira-as o vento ao chão; mas a floresta no seu viço/ faz nascer outras, quando sobrevem a estação da primavera:/ assim nasce uma geração de homens; e outra deixa de existir. (VI.145-149)

Ainda assim, ele prossegue com a narração das aventuras de seus antepassados mais imediatos, e com isso ele e Diomedes descobrem-se parentes, desistem de lutar e trocam presentes – para depois irem matar algum outro soldado que lhes seja menos aparentado.  É uma cena única no poema, e muito curiosa. Um momento em que a linhagem tem um efeito pacificador nos homens, tão afeitos aos laços de sangue.

No entato, a violência segue. A Ilíada, primeira obra da literatura ocidental, é também a primeira história de vingança. Muito menos do que a glória, objetivo típico dos nobres gregos, o que motiva as ações de Aquiles no clímax do épico é o ódio provocado nele pela morte de Pátroclo. Com um ira verdadeiramente terrível, ele massacra os soldados troianos a torto e a direito, e consegue enfim matar Heitor. Mas não é suficiente. Destroçado, ainda, pela morte de seu melhor amigo, ele arrasta o corpo de Heitor ao redor do túmulo de Pátroclo, planeja entregá-lo aos cães e, no funeral do companheiro, sacrifica doze jovens troianos.

As cenas que antecedem o funeral são de uma pungência extraordinária. No início do Canto XXIII, o fantasma de Pátroclo visita Aquiles para pedir que ele o sepulte logo, pois de outro modo não poderá atravessa o rio que leva ao mundo dos mortos. Enquanto lia essa cena, no silêncio de uma sala do Fisk, em uma terça à noite, fui tomado por uma melancolia enorme. A Ilíada é também a primeira tragédia – a tragédia de um homem que desejava a glória, mas quando perde aquele que mais amava, por sua própria teimosia, é machucado para além de qualquer remédio. Estive pensando esses dias na ferida que o Rei dos Bruxos de Angmar produz em Frodo, e no efeito duradouro, insuperável, dela. O hobbit precisa ir para o Oeste por causa dela, pois algumas feridas simplesmente não saram, simplesmente não podem ser esquecidas.

No Gênesis, por outro lado (já no Gênesis!), um dos motivos principais é o perdão. Esaú perdoa Jacó, José perdoa seus irmãos, e assim se conclui a primeira parte de uma história que sem dúvida ainda apresentará muita violência e sofrimento – mas, para aqueles personagens, foi possível ir além das mágoas, ir além do ato de agressão contra o Outro que caracteriza o homem desde que Adão se evade da responsabilidade por seus atos acusando Eva, e perdoar, reconstruir a fraternidade.  Algo semelhante acontece, por fim, no Canto XXIV da Ilíada, quando Príamo visita na calada da noite a cabana de Aquiles para pedir de volta o corpo do filho. Príamo enxerga em Aquiles alguém como o filho, e Aquiles enxerga em Príamo alguém como o pai. A partir desse ato de empatia, de enxergar a si próprio no outro, é possível parar a violência, retomar, nem que seja por um instante, a paz.

Visitando esses textos fundadores, sinto que tenho acesso a algo de essencial. Se eles estão no marco inicial de nossa civilização e cultura, talvez seja bom voltar a eles, nesse momento em que nossa civilização e cultura se aproximam do fim, e buscar alguma espécie de âmago que possa nos ensinar a produzir, a partir das ruínas, o novo.

Um abraço,

Thomaz

Em resposta a: João/Thomaz #24

 

João/Thomaz #24

Caro Thomaz,

Hoje te envio mais uma carta dentro de uma carta. Sua última carta tratou de dois temas bastante complexos, por isso decidi separar a resposta a ela do meu relato da semana.

Você primeiro falou das símiles de Homero, citando o exemplo do javali aterrorizado. É engraçado que isso se encaixa muito bem com o que você falou a seguir: o caráter de “lugar” dos lugares mencionados. Porque descrições como essa de Homero e como as narrativas da música country e como as elaborações de Proust e como as sagas nórdicas e como “Paisagem da Janela” determinam quase totalmente a imagem mental que nós temos dos seus respectivos lugares antes de os vermos. E melhor do que isso, elas dão todo um peso transformador especial, que é até difícil de encarnar espontaneamente, à experiência de visitarmos os lugares afinal de contas.

Sinceramente, hoje eu acho o javali um animal impressionante, e acho que isso se deve a uma combinação de Homero, Miyazaki, Mabinogion e Age of Empires. Ver uma pré-histórica caveira de javali no Museu Nacional não teria metade da graça sem tudo isso.

O que nos leva à carta.

— — — — —

Copenhague, 15 de setembro de 2013.

Caro Thomaz,

Você me coloca em apuros com o comentário sobre a última carta. Fico feliz de ter conseguido transformar aquela semana tão estranha em algo legível, mas agora parece que adquiri o compromisso (entre tantos outros) de fazer isso outras vezes. E não faço a menor ideia de como descrever esta última semana num texto coerente.

Começo pelas aulas. Tive minhas primeiras aulas de cinema dinamarquês e de mitologia nórdica esta semana. Foram as aulas iniciais mais interessantes. Na primeira, tivemos uma breve apresentação do assunto seguida da exibição de Festen (The Celebration), o primeiro filme do grupo Dogma 95. É um ótimo filme. Uma excelente história que traz a vantagem de explorar como novidade o realismo possibilitado pelo Dogma. A impressão é que o curso colocará o cinema dinamarquês num contexto internacional. Uma pena que não houve discussão depois. 75% dos atores são os mesmos de uma comédia romântica da Susanne Bier que vi no avião (All you need is love). Mitologia nórdica não foi muito além de uma introdução, mas isso é suficiente para me deixar empolgado com a aula.

Na sexta-feira, fomos ao evento na Biblioteca Real (aka Black Diamond) com o Jacques Rancière. Era na verdade uma série de entrevistas durante todo o dia. Estive em todas as que não eram em dinamarquês – a do Rancière e uma anterior. Eu não sabia absolutamente nada sobre política europeia, por isso essa primeira entrevista, cujo tema principal foi a definição de populismo, foi bastante útil. O entrevistado era um comentarista político jornalístico, Jan Werner-Müller, e suas explicações didáticas me foram providenciais. Fiquei incomodado com um momento em que ele disse, com outras palavras, que a Europa bobeou ao não interferir na Primavera Árabe. O colonialismo mandou um abraço.

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Black Diamond

Houve um intervalo de duas horas e meia entre as duas entrevistas, e aqui é que as coisas começam a ficar estranhas. Eu e minha colega resolvemos ir à Cidade Livre de Christiania, que fica ali perto. Caso você não saiba, Christiania é uma comunidade alternativa fundada por hippies na década de 1970 numa área militar abandonada , na região de Copenhague chamada Christianshavn. Depois de inúmeras tentativas de expulsar seus habitantes, a Dinamarca resolveu deixar Christiania continuar existindo separada de Copenhague como um tipo de experimento social.

Pense naquele bairro de Buenos Aires chamado La Boca. Pinte todas as paredes (as de alvenaria) desse bairro com belos grafites como os que nós temos nas grandes cidades brasileiras mesmo. Coloque a feira hippie mais excêntrica e desimpedida que você conseguir imaginar aí no meio. É mais ou menos isso. Tenho certeza que esse lugar é o paraíso de alguns dos nossos amigos. É, de fato, além de um lugar muito bonito, uma experiência cultural única. Mas a visita no meio das duas palestras estava totalmente fora de lugar.

Digo tudo isso porque, infelizmente, (a única restrição) é estritamente proibido tirar fotos dentro da Cidade Livre de Christiania.

Jacques Rancière, como é de se esperar, não foi tão acrítico sobre o colonialismo quanto o outro entrevistado. Sua parte foi praticamente uma resposta à ideologia daquela visão do Werner-Müller. A entrevista tinha o objetivo de divulgar a recente tradução de seu livro “O ódio à democracia” para o dinamarquês.

Rancière não é falante nativo de inglês. Também não é cientista político nem jornalista e sim filósofo. Portanto, não foi muito fácil entender o que ele dizia. O entrevistador, pra ajudar, também falava enrolado e não sabia fazer perguntas diretas. Mas o principal é o seguinte. No livro, Rancière busca compreender a contradição de que as potências europeias invadem os países para estabelecer democracia neles. A resolução que encontra é dar uma definição de democracia como algo relacionado à estética, à percepção e aos sentidos. É uma forma de perceber o mundo que surgiu na Revolução Francesa e é essencialmente transformadora da realidade. Por isso, as elites estão condenadas a odiar a democracia. E aí, para poder conviver com ela, elas precisam redefinir o termo de forma a permitir esse tipo de exercício do poder.

Jacques Rancière e seu entrevistador

Imagine minha saturação de informação ao final desse dia. Vou te poupar dos detalhes, mas depois que saímos do evento ainda fomos jantar a macarronada e pizza que uns amigos italianos tinham nos prometido preparar uns dias atrás. Por algum motivo, todo mundo resolveu me fazer perguntas sobre política brasileira nesse jantar. Eu tive que explicar as manifestações de junho sem entender o que elas foram. Mas a comida estava boa.

Já te cansei? Espera, essa foi só a sexta.

No sábado, tinha combinado com minha colega da Unicamp de almoçar no Hard Rock Café e depois ir ao Museu Nacional, o Museu Britânico da Dinamarca (digamos assim).

Nunca tinha ido a um Hard Rock antes. Ficamos lá duas horas, encantados com os souvenirs, a música e principalmente a comida. Chegamos ao Museu muito tarde e só tivemos tempo de ver o primeiro andar (pré-história). Já valeu muito a pena. Nunca fui ao Museu Britânico, mas não acho que a comparação seja exagerada. A exposição temporária é sobre vikings, tema que não vira exposição aqui há mais de vinte anos. Tenho que reservar um bom tempo para uma visita bastante especial ao segundo andar. Os dois outros andares contêm o acervo mais recente.

Máscaras vikings no Museu Nacional

Carro solar da pré-história germânica

À noite, fui a uma festa no Tietgen, a residência estudantil que a partir de agora declaro a mais incrível do mundo. A festa não era nada demais, apesar de eu ter conhecido mais alguns alunos bem legais. Mas o prédio… Ah, o prédio. As salas de convivência dos apartamentos, cujas paredes voltadas para o pátio interior da residência são de vidro, saltavam do prédio e se debruçavam sobre o lugar onde a festa acontecia, de forma que todos os alunos, em suas salas e varandas, participavam da festa de alguma forma. Até ontem, só tinha visto esse conjunto de apartamentos-caixotes por fora, e nem imaginava a sensação mágica de estar ali dentro.

Pátio do Tietgen (http://tietgenkollegiet.dk/)

Por fim, chegamos a hoje. Visitei o Palácio de Frederiksborg na cidade de Hillerød, a cerca de uma hora de ônibus de Copenhague. Dentro dele fica o Museu de História Nacional. É a primeira excursão do curso de cultura dinamarquesa. Como a carta já está enorme, te deixo aqui com as fotos.

Abraços,

João G.

P.S.: Meu colega de quarto chegou! O nome dele é Alex e, para nossa surpresa, ele é de Londres.

P.P.S.: Está ficando frio.

Em resposta a: Thomaz/João #23

Thomaz/João #23

Caro João,

Fico muito feliz de ler essas suas cartas. Você tem conseguido transformar suas experiências pessoais em experiências de leitura. Acredito que mesmo quem não te conheça, ao ler seus relatos, se sentiria afetado pela força deles. Nessa última carta, de modo especial, fiquei impressionado com a analogia entre o Louisiana MoMA e o festival de Jazz. Momentos de assombro para você se tornam momentos de assombro para o leitor.

Não posso deixar de fazer uma relação com os símiles de Homero (sim) na Ilíada, que estou lendo esses dias na tradução de Frederico Lourenço, um português. A tradução é muito especial porque mantém o caráter oral, performático, repetitivo e caudaloso da poesia homérica. É possível enxergar o texto grego (ao menos para quem tem alguma familiaridade com a língua) através da tradução. Creio que este é o maior mérito de uma tradução. De certo modo, é isso também que você tem feito em suas cartas: traduzido. É possível enxergar suas experiências através do relato.

Mas começava a falar dos símiles: segundo a introdução, há mais de trezentos deles ao longo da obra (e, acredite se quiser, 666 falas de personagens). Alguns são verdadeiramente impressionantes.

Mas o terror não se apoderou de Idomeneu como de um rapaz

mimado, mas estacou como um javali das montanhas, confiante

na sua força, que aguenta a chusma de homens que contra ele

avança em local ermo; o dorso se lhe eriça em cima

e como fogo lhe brilham os olhos; e afia as presas

ansioso por dali repulsar homens e cães –

assim permaneceu firme Idomeneu, famoso pela sua lança,

sem arredar pé, à investida de Eneias.

(XIII. 470 – 7)

A descrição que você fez das paragens nórdicas coincidiu com um post da Carol Bensimon no Blog da Companhia das Letras sobre a América profunda. Acredito que existem muitas semelhanças entre esses dois ambientes. Não só na paisagem, mas sobretudo no status mítico adquirido através da arte. E ainda mais – embaralho-me para conseguir expressá-lo – no caráter de lugar desses lugares. No peso que eles têm enquanto paisagem, enquanto lugares de fato. A própria Carol cita Rebecca Solnit a esse respeito:

Perhaps it’s that you can’t go back in time, but you can return to the scenes of a love, of a crime, of happiness, and of a fatal decision; the places are what remain, are what you can possess, are what is immortal. They become the tangible landscape of memory, the places that made you, and in some way you too become them. They are what you can possess and what in the end possesses you.

[Talvez você não possa voltar no tempo, mas possa retornar aos cenários de um amor, de um crime, de felicidade, de uma decisão fatal; os lugares são o que permanece, são o que você pode possuir, o que há de imortal. Eles se tornam a paisagem tangível da memórias, os lugares que te fizeram, e de alguma maneira você se transforma neles. Eles são o que você pode possuir e o que, no fim, possui você.]

Proust tange o mesmo tema, embora seu balanço de forças possa ser diferente.

Les lieux que nous avons connus n’appartiennent pas qu’au monde de l’espace où nous les situons pour plus de facilité. Ils n’étaient qu’une mince tranche au milieu d’impressions contiguës qui formaient notre vie d’alors; le souvenir d’une certaine image n’est que le regret d’un certain instant; et les maisons, les routes, les avenues, sont fugitives, hélas, comme les années.

[Os lugares que conhecemos não pertencem sequer ao mundo do espaço, onde os situamos para maior facilidade. Não passam de uma fina fatia no meio de impressões contíguas que formavam nossa vida de então; a lembrança de uma certa imagem não é senão o lamento por um certo instante; e as casas, as ruas, as avenidas, são fugitivas, infelizmente, como os anos.]

O espaço e seus sinais tem me fascinado.

Para terminar, uma música que você deve estar ouvindo já por aí, mas ainda assim se conjuga à perfeição com esta carta.


Um abraço,

Thomaz

øøøøøøøøøø

Em resposta a : João/Thomaz #22

Thomaz/Stefano #8

Caro Stefano,

Sua carta também foi, para mim, um lugar onde chegar. Acho que textos também pertencem ao mundo do espaço, não só na página como, sobretudo, na memória. Neles se experimenta a mesma sensação de solidão que você descreveu. Nem sempre, nos livros como na vida, podemos alcançar essa sensação de pertencimento ao local e ao instante. Mas se, como você descreveu, essa experiência lança raízes implacáveis, ainda assim acredito no caráter benéfico dessa força.

É preciso viver o onde, ainda que muitas vezes isso seja impossível. Essa nossa conversa me lembrou de nossas primeiras cartas, em que eu falava sobre Cem Anos de Solidão e sobre a chuva em Macondo. Estamos sempre voltando aos mesmos lugares.

Espero notícias detalhadas suas para breve! Conte-me sobre como anda sua vie parisienne – o trabalho, as aulas, o cotidiano.

Um abraço,

Thomaz

Em resposta a: Stefano/Thomaz #7

João/Thomaz #22

Estátuas de Giacometti

Estátuas de Giacometti

Copenhague, 9 de setembro de 2013.

Querido Thomaz,

Você tem razão ao lembrar a Gesta Danorum: ela foi mencionada na nossa aula (embora, para minha frustração e para o bem dos demais alunos, não tenhamos entrado em tantos detalhes sobre a história medieval da Dinamarca). Na verdade, ela foi sugerida pelo próprio Absalão ao Saxo Grammaticus e é considerada um dos primeiros passos em direção à construção de uma consciência dinamarquesa. Foi um sucesso na época. Acredito que ela não seja tão interessante de se ler quanto a Historia Regum Britanniae, em que Shakespeare também viu mais de uma tragédia.

Também falou-se que Absalão é considerado popularmente o fundador de Copenhague, mas que na verdade ele era mais como um dono da cidade na época em que ela foi fortificada. Sobre o Saxo Grammaticus pouco se sabe, exceto que talvez ele tenha sido educado onde nosso amigo Stefano se encontra atualmente. A Dinamarca já foi bem maior do que é hoje, mas pretendo te escrever sobre isso noutra ocasião.

Os “binders” são exatamente isso que você pensou: o que eles estão “binding” são as folhas que contêm todos os textos das matérias. É prático. Mas, como você já deve ter adivinhado, também é bastante caro. Não sei se isso se deve aos direitos autorais ou à riqueza dos nórdicos. Provavelmente às duas coisas.

Estou prestes a ter minha primeira aula sobre Kierkegaard, que também é uma introdução. A aula seguinte tem o misterioso título “Finding the idea for which I am willing to live and die”. Cursos de filosofia…

Mudandø de åssunto, gostei da sua expressão ”habitante dessas paisagens espirituais do norte”. O Lewis tem uma descrição famosa desse fascinante clima que acaba nos envolvendo quando estamos aqui, algo que ele chama de “Northernness”:

a vision of huge, clear spaces hanging above the Atlantic in the endless twilight of Northern summer; remoteness, severity.

Provavelmente ele nunca chegou a visitar o Museu Louisiana em Humlebæk, no Norte da Zelândia. Eu fiz isso na última sexta-feira, dia 6, com minha colega russa e uma amiga sua que veio da Alemanha. É um dos principais museus de arte moderna do mundo — contém obras de Giacometti, Picasso, Rothko, Andy Warhol, Yves Klein e muitos outros. A mostra temporária eram os trabalhos mais icônicos da Yoko Ono. Estranhamente, eles também têm uma ótima coleção de arte pré-colombiana. É boa mesmo.

Muita esquisitice (pra mim) já pulsa na própria arte moderna; quanto mais feitas essas combinações insólitas. Mas isso não é tudo. A arquitetura do museu, como se espera, é uma obra a ser visitada e apreciada em si. Os espaços de exibição são muito bem distribuídos entre o interior e o exterior, e são articulados de tal forma que algumas vezes me vi – literalmente – perdido em trilhas pantanosas nos jardins do museu.

Numa dessas vezes, aconteceu de acabarmos num morro sobre uma praia do Øresund, o estreito que separa a Dinamarca da Suécia. Quando eu olhei para o mar e vi as luzes distantes de uma cidade estranha do outro lado, percebi que estava a poucos quilômetros de um país que um dia fora inescapavelmente remoto. Oras, eu estou num país que um dia foi deveras remoto. Ali, sentindo o vento gelado entre o Báltico e o Mar do Norte, eu tive por um momento uma sensação diferente, talvez a impressão de que agora qualquer coisa pode acontecer.

Talvez não seja à toa que o jazz de Copenhague é tão respeitado. Porque essa mesma sensação retornou quando fui a um festival de jazz no sábado, sete de setembro. Foram sete shows: os seis primeiros tiveram o efeito das coleções do museu; o sétimo foi como a praia no Øresund. Nele, Rhys Chatham, um conhecido músico experimental, tocou a sua “composição” mais importante, ironicamente intitulada Guitar Trio, com um quinteto de guitarras, baixo e bateria.

A obra consiste em um acorde de E (mi maior) tocado durante vinte minutos a uma batida irregular meio punk. O volume vai aumentando, e com ele as distorções, e o efeito geral é meio psicodélico. Quando a música acabou, ele a tocou novamente. Em seguida veio uma música que não vou precisar descrever: The Well-Tuned Guitar. Segundo Chatham, foi “inspirada pelo filósofo grego Pitágoras”. Os anjos, já dizia Rilke, podem mesmo ser assustadores.

A classuda e excêntrica Jazzhouse

Bar da classuda e excêntrica Jazzhouse

Não se sabe se C. S. Lewis veio alguma vez para a Escandinávia. Sua imagem daqui certamente foi tirada dos livros. Acho que esta nossa história de fato significa muito mais do que eu imaginava.

Saudações,

João G.

Em resposta a: Thomaz/João #21