João/Thomaz #24

Caro Thomaz,

Hoje te envio mais uma carta dentro de uma carta. Sua última carta tratou de dois temas bastante complexos, por isso decidi separar a resposta a ela do meu relato da semana.

Você primeiro falou das símiles de Homero, citando o exemplo do javali aterrorizado. É engraçado que isso se encaixa muito bem com o que você falou a seguir: o caráter de “lugar” dos lugares mencionados. Porque descrições como essa de Homero e como as narrativas da música country e como as elaborações de Proust e como as sagas nórdicas e como “Paisagem da Janela” determinam quase totalmente a imagem mental que nós temos dos seus respectivos lugares antes de os vermos. E melhor do que isso, elas dão todo um peso transformador especial, que é até difícil de encarnar espontaneamente, à experiência de visitarmos os lugares afinal de contas.

Sinceramente, hoje eu acho o javali um animal impressionante, e acho que isso se deve a uma combinação de Homero, Miyazaki, Mabinogion e Age of Empires. Ver uma pré-histórica caveira de javali no Museu Nacional não teria metade da graça sem tudo isso.

O que nos leva à carta.

— — — — —

Copenhague, 15 de setembro de 2013.

Caro Thomaz,

Você me coloca em apuros com o comentário sobre a última carta. Fico feliz de ter conseguido transformar aquela semana tão estranha em algo legível, mas agora parece que adquiri o compromisso (entre tantos outros) de fazer isso outras vezes. E não faço a menor ideia de como descrever esta última semana num texto coerente.

Começo pelas aulas. Tive minhas primeiras aulas de cinema dinamarquês e de mitologia nórdica esta semana. Foram as aulas iniciais mais interessantes. Na primeira, tivemos uma breve apresentação do assunto seguida da exibição de Festen (The Celebration), o primeiro filme do grupo Dogma 95. É um ótimo filme. Uma excelente história que traz a vantagem de explorar como novidade o realismo possibilitado pelo Dogma. A impressão é que o curso colocará o cinema dinamarquês num contexto internacional. Uma pena que não houve discussão depois. 75% dos atores são os mesmos de uma comédia romântica da Susanne Bier que vi no avião (All you need is love). Mitologia nórdica não foi muito além de uma introdução, mas isso é suficiente para me deixar empolgado com a aula.

Na sexta-feira, fomos ao evento na Biblioteca Real (aka Black Diamond) com o Jacques Rancière. Era na verdade uma série de entrevistas durante todo o dia. Estive em todas as que não eram em dinamarquês – a do Rancière e uma anterior. Eu não sabia absolutamente nada sobre política europeia, por isso essa primeira entrevista, cujo tema principal foi a definição de populismo, foi bastante útil. O entrevistado era um comentarista político jornalístico, Jan Werner-Müller, e suas explicações didáticas me foram providenciais. Fiquei incomodado com um momento em que ele disse, com outras palavras, que a Europa bobeou ao não interferir na Primavera Árabe. O colonialismo mandou um abraço.

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Black Diamond

Houve um intervalo de duas horas e meia entre as duas entrevistas, e aqui é que as coisas começam a ficar estranhas. Eu e minha colega resolvemos ir à Cidade Livre de Christiania, que fica ali perto. Caso você não saiba, Christiania é uma comunidade alternativa fundada por hippies na década de 1970 numa área militar abandonada , na região de Copenhague chamada Christianshavn. Depois de inúmeras tentativas de expulsar seus habitantes, a Dinamarca resolveu deixar Christiania continuar existindo separada de Copenhague como um tipo de experimento social.

Pense naquele bairro de Buenos Aires chamado La Boca. Pinte todas as paredes (as de alvenaria) desse bairro com belos grafites como os que nós temos nas grandes cidades brasileiras mesmo. Coloque a feira hippie mais excêntrica e desimpedida que você conseguir imaginar aí no meio. É mais ou menos isso. Tenho certeza que esse lugar é o paraíso de alguns dos nossos amigos. É, de fato, além de um lugar muito bonito, uma experiência cultural única. Mas a visita no meio das duas palestras estava totalmente fora de lugar.

Digo tudo isso porque, infelizmente, (a única restrição) é estritamente proibido tirar fotos dentro da Cidade Livre de Christiania.

Jacques Rancière, como é de se esperar, não foi tão acrítico sobre o colonialismo quanto o outro entrevistado. Sua parte foi praticamente uma resposta à ideologia daquela visão do Werner-Müller. A entrevista tinha o objetivo de divulgar a recente tradução de seu livro “O ódio à democracia” para o dinamarquês.

Rancière não é falante nativo de inglês. Também não é cientista político nem jornalista e sim filósofo. Portanto, não foi muito fácil entender o que ele dizia. O entrevistador, pra ajudar, também falava enrolado e não sabia fazer perguntas diretas. Mas o principal é o seguinte. No livro, Rancière busca compreender a contradição de que as potências europeias invadem os países para estabelecer democracia neles. A resolução que encontra é dar uma definição de democracia como algo relacionado à estética, à percepção e aos sentidos. É uma forma de perceber o mundo que surgiu na Revolução Francesa e é essencialmente transformadora da realidade. Por isso, as elites estão condenadas a odiar a democracia. E aí, para poder conviver com ela, elas precisam redefinir o termo de forma a permitir esse tipo de exercício do poder.

Jacques Rancière e seu entrevistador

Imagine minha saturação de informação ao final desse dia. Vou te poupar dos detalhes, mas depois que saímos do evento ainda fomos jantar a macarronada e pizza que uns amigos italianos tinham nos prometido preparar uns dias atrás. Por algum motivo, todo mundo resolveu me fazer perguntas sobre política brasileira nesse jantar. Eu tive que explicar as manifestações de junho sem entender o que elas foram. Mas a comida estava boa.

Já te cansei? Espera, essa foi só a sexta.

No sábado, tinha combinado com minha colega da Unicamp de almoçar no Hard Rock Café e depois ir ao Museu Nacional, o Museu Britânico da Dinamarca (digamos assim).

Nunca tinha ido a um Hard Rock antes. Ficamos lá duas horas, encantados com os souvenirs, a música e principalmente a comida. Chegamos ao Museu muito tarde e só tivemos tempo de ver o primeiro andar (pré-história). Já valeu muito a pena. Nunca fui ao Museu Britânico, mas não acho que a comparação seja exagerada. A exposição temporária é sobre vikings, tema que não vira exposição aqui há mais de vinte anos. Tenho que reservar um bom tempo para uma visita bastante especial ao segundo andar. Os dois outros andares contêm o acervo mais recente.

Máscaras vikings no Museu Nacional

Carro solar da pré-história germânica

À noite, fui a uma festa no Tietgen, a residência estudantil que a partir de agora declaro a mais incrível do mundo. A festa não era nada demais, apesar de eu ter conhecido mais alguns alunos bem legais. Mas o prédio… Ah, o prédio. As salas de convivência dos apartamentos, cujas paredes voltadas para o pátio interior da residência são de vidro, saltavam do prédio e se debruçavam sobre o lugar onde a festa acontecia, de forma que todos os alunos, em suas salas e varandas, participavam da festa de alguma forma. Até ontem, só tinha visto esse conjunto de apartamentos-caixotes por fora, e nem imaginava a sensação mágica de estar ali dentro.

Pátio do Tietgen (http://tietgenkollegiet.dk/)

Por fim, chegamos a hoje. Visitei o Palácio de Frederiksborg na cidade de Hillerød, a cerca de uma hora de ônibus de Copenhague. Dentro dele fica o Museu de História Nacional. É a primeira excursão do curso de cultura dinamarquesa. Como a carta já está enorme, te deixo aqui com as fotos.

Abraços,

João G.

P.S.: Meu colega de quarto chegou! O nome dele é Alex e, para nossa surpresa, ele é de Londres.

P.P.S.: Está ficando frio.

Em resposta a: Thomaz/João #23

One thought on “João/Thomaz #24

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