Thomaz/João #27

João Guilherme,

Sua última carta me provocou uma espécie de vertigem. Vocês nos conduziu voando até o fim do trampolim mas interrompeu o fluxo de suas palavras no momento do salto. Aquilo que você chamou de lacunas nos textos fundadores também se encontra na sua carta. Tentarei, então, construir uma civilização nessas lacunas.

Começo falando sobre esse sentimento de ruína presente no seu parágrafo sobre a glória Viking. Ele me lembrou aquele gênero poético chamado de Ubi Sunt, que tem praticantes tão ilustres quanto o poeta francês François Villon e exemplos tão conhecidos quanto a canção universitária que começa pelos versos célebres Gaudeamos igitur iuuenes dum sumus.

Esse gênero teve vida fértil, não por acaso, na poesia anglo-saxônica, e Tolkien “reciclou” um de seus exemplares, The Wanderer, sobre o qual Borges fala no seu Curso de Literatura Inglesa, para transformá-lo em uma canção rohirrim que versa belamente sobre a passagem do tempo e o desaparecimento das coisas passadas.

Where now the horse and the rider? Where is the horn that was blowing?
Where is the helm and the hauberk, and the bright hair flowing?
Where is the hand on the harpstring, and the red fire glowing?
Where is the sping and the harvest and the tall corn growing?
They have passed like rain on the mountain, like a wind in the meadow;
The days have gone down in the West behind the hills into shadow.
Who shall gather the smoke of the dead wood burning,
Or behold the flowing years from the Sea returning?

O cancioneiro popular brasileiro, a seu modo, também se aproveita dessa estrutura, indicando porém identidades flutuantes para o “anjo exterminador” responsável pela efemeridade das coisas.

Cadê o toucinho que estava aqui? O gato comeu.
Cadê o gato? Está no mato.
Cadê o mato? O fogo queimou.
Cadê o fogo? A água apagou.
Cadê a água? O boi bebeu.
Cadê o boi? Está amassando o trigo.
Cadê o trigo? A galinha espalhou.
Cadê a galinha? Foi botar o ovo.
Cadê o ovo? O padre bebeu.
Cadê o padre? Foi rezar a missa.
Cadê a missa? Já se acabou.
Cadê o pessoal que estava na missa?
Passou por aqui, por aqui e por aqui…

Tudo o que passa dá lugar a algo novo. Ah, a sabedoria popular…

Pensando nisso, não posso evitar de encarar um pouco criticamente meu próprio olhar pregresso sobre o “fim” da nossa civilização. Lendo recentemente a História da Literatura Ocidental do Carpeaux (uma leitura que deve durar anos, se é que acabará um dia), deparei-me com um texto sobre a relação entre nossa civilização e a Antiguidade. Ele lembra, nesse texto, que os intelectuais de todas as épocas afirmaram o fim do mundo. Penso naquela imagem de Adorno sobre o “grande hotel abismo”, um coletivo de intelectuais e acadêmicos “hospedados” à margem do abismo (como a pessoa que dança no fragmento de Kierkegaard), observando com tristeza e algum desprezo o “fim do mundo”.

No mesmo texto, Carpeaux demonstra como, entre a Antiguidade propriamente dita e a modernidade, nossa civilização passou por uma serie de renascenças (praticamente uma a cada século) nas quais se tentava resgatar o ideal da Antiguidade Clássica, mas que na verdade se tratava de buscar aquilo que era próprio ao espírito de cada época.

Acredito que esse processo descreve um pouco melhor o fluxo humano através do tempo. Gaudeamus igitur dum senes sumus.

Thomaz

Em resposta a João/Thomaz #26

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