Stefano/Thomaz #7

Paris, 07 de Setembro de 2013.

Toumat,

Esta não é a carta que eu lhe escrevia. Na verdade, eu fiquei um bom tempo para poder responder suas indagações e, um tanto quanto perdido, eu me via mergulhado em uma catastrófica avalanche de palavras difíceis e vãs filosofias. Mas hoje, sentei-me na Place Monge e percebi que eu tenho, por fim, algo a lhe dizer sobre o real sentido da resposta de sua questão. “Para onde vamos?” você me dizia. E eu lhe digo agora o que eu cruelmente percebi.

Eu vim.

Ainda que exista o intangível lugar para o qual estamos indo, por vezes também chegamos – o processo não é simplesmente uma fuga constante e desenfreada. Quando menos se espera, chega-se também. E cá estou. Eu cheguei nesse ponto culminante com o qual eu sonhei tanto e, infelizmente, como você disse, a beleza e a força da expectativa é o prestes. O prestes é fértil, mas agora sinto a germinação do sonho romper minhas estruturas com suas frondosas raízes. Ao contrário do que eu dizia, parece-me agora que a beleza de tudo é o retorno. Num puro platonismo, como se tivéssemos despencado de uma redoma elevada e vivêssemos na tentativa de voltar a sentir o que antes sentíamos e andar com a leveza que antes andávamos.

Nós não vamos para o Céu, nós retornamos para lá.

Acho que é isso que eu sentia a todo tempo, mas não podia perceber ao certo. Só agora entendo que as nuanças no percurso são deveras necessárias, do contrário a padronização acaba por cortar pela raiz as possibilidades de sensação. Lembro-me daquela canção que diz: “o mesmo trem que chega é o trem da partida” e parece óbvio nesse instante que a viagem é sempre uma. Mas a montanha-russa vai de costas o trajeto todo. É o que penso agora, talvez um pouco porque o retorno se tornou o meu apogeu intangível para o momento. Assim, pender no retorno é o que parece tirar-me o fôlego no momento. Nós retornamos sempre como pequenos e curiosos Benjamins retrocedendo na própria história – dizem até que a natureza humana é má e que crianças são diabólicas. Ou seja, estamos em primeiro momento no estágio mais grotesco da involução, porém com o tempo vamos retornando conscientemente ao ser elevado e, cada vez, mais perto do Céu.

Eu penso em tudo isso agora, enquanto respiro aliviado a brisa dessas árvores frondosas.

A Place Monge é definitivamente um lugar encantador para se pensar em tudo isso, enquanto os rapazes ao meu lado falando sobre seus desafetos amorosos em Espanhol. Tem tanta gente nesse mundo indo e vindo em constante retorno e nem por isso compartilhamos as nossas órbitas. Solitários. Essa gente é muito solitária por aqui, acho isso sempre curioso e inacreditável.

Sou um louco ou acostumar-se com a solidão não é assim deveras árduo?

Com açúcar, com afeto,
S.

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