Thomaz/João #23

Caro João,

Fico muito feliz de ler essas suas cartas. Você tem conseguido transformar suas experiências pessoais em experiências de leitura. Acredito que mesmo quem não te conheça, ao ler seus relatos, se sentiria afetado pela força deles. Nessa última carta, de modo especial, fiquei impressionado com a analogia entre o Louisiana MoMA e o festival de Jazz. Momentos de assombro para você se tornam momentos de assombro para o leitor.

Não posso deixar de fazer uma relação com os símiles de Homero (sim) na Ilíada, que estou lendo esses dias na tradução de Frederico Lourenço, um português. A tradução é muito especial porque mantém o caráter oral, performático, repetitivo e caudaloso da poesia homérica. É possível enxergar o texto grego (ao menos para quem tem alguma familiaridade com a língua) através da tradução. Creio que este é o maior mérito de uma tradução. De certo modo, é isso também que você tem feito em suas cartas: traduzido. É possível enxergar suas experiências através do relato.

Mas começava a falar dos símiles: segundo a introdução, há mais de trezentos deles ao longo da obra (e, acredite se quiser, 666 falas de personagens). Alguns são verdadeiramente impressionantes.

Mas o terror não se apoderou de Idomeneu como de um rapaz

mimado, mas estacou como um javali das montanhas, confiante

na sua força, que aguenta a chusma de homens que contra ele

avança em local ermo; o dorso se lhe eriça em cima

e como fogo lhe brilham os olhos; e afia as presas

ansioso por dali repulsar homens e cães –

assim permaneceu firme Idomeneu, famoso pela sua lança,

sem arredar pé, à investida de Eneias.

(XIII. 470 – 7)

A descrição que você fez das paragens nórdicas coincidiu com um post da Carol Bensimon no Blog da Companhia das Letras sobre a América profunda. Acredito que existem muitas semelhanças entre esses dois ambientes. Não só na paisagem, mas sobretudo no status mítico adquirido através da arte. E ainda mais – embaralho-me para conseguir expressá-lo – no caráter de lugar desses lugares. No peso que eles têm enquanto paisagem, enquanto lugares de fato. A própria Carol cita Rebecca Solnit a esse respeito:

Perhaps it’s that you can’t go back in time, but you can return to the scenes of a love, of a crime, of happiness, and of a fatal decision; the places are what remain, are what you can possess, are what is immortal. They become the tangible landscape of memory, the places that made you, and in some way you too become them. They are what you can possess and what in the end possesses you.

[Talvez você não possa voltar no tempo, mas possa retornar aos cenários de um amor, de um crime, de felicidade, de uma decisão fatal; os lugares são o que permanece, são o que você pode possuir, o que há de imortal. Eles se tornam a paisagem tangível da memórias, os lugares que te fizeram, e de alguma maneira você se transforma neles. Eles são o que você pode possuir e o que, no fim, possui você.]

Proust tange o mesmo tema, embora seu balanço de forças possa ser diferente.

Les lieux que nous avons connus n’appartiennent pas qu’au monde de l’espace où nous les situons pour plus de facilité. Ils n’étaient qu’une mince tranche au milieu d’impressions contiguës qui formaient notre vie d’alors; le souvenir d’une certaine image n’est que le regret d’un certain instant; et les maisons, les routes, les avenues, sont fugitives, hélas, comme les années.

[Os lugares que conhecemos não pertencem sequer ao mundo do espaço, onde os situamos para maior facilidade. Não passam de uma fina fatia no meio de impressões contíguas que formavam nossa vida de então; a lembrança de uma certa imagem não é senão o lamento por um certo instante; e as casas, as ruas, as avenidas, são fugitivas, infelizmente, como os anos.]

O espaço e seus sinais tem me fascinado.

Para terminar, uma música que você deve estar ouvindo já por aí, mas ainda assim se conjuga à perfeição com esta carta.


Um abraço,

Thomaz

øøøøøøøøøø

Em resposta a : João/Thomaz #22

One thought on “Thomaz/João #23

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