Stefano/João #7

(ou “Sou ruim com encontros marcados e por isso demorei tanto para responder”)

Cachan, 6 de setembro de 2013.

Jean,

Sua carta me intriga, mas eu gosto dela, do fato de ter somente uma foto e ser, assim, um relato de uma vida toda. Vida talvez sua uma hipérbole descabida, mas de um recomeço de tempo pelo qual passamos. Já bem acomodados, aqui estamos em solo europeu. Curioso que a nossa experimentação dos lugares é algo completamente novo, porém a existência dos signos é completamente superior à nossa existência. Por isso, eu retomo a foto: a estátua é uma existência por si própria, objetivada no mundo, mas nós a possuímos. Nós é um outro impropério, quem a possui é você, mas a atitude de descoberta compete a ambos – até o idioma é outra dessas jornadas ardilosas pela qual você está se aventurando.

Somos parte das grandes navegações modernas que, na verdade, vão em busca de conhecimento, e não mais necessariamente de ouro e especiarias. Quer dizer, reflito agora que toda expedição tem um caráter de exploração e esgotamento do outro: vou até uma terra distante parasitar o conhecimento, a riqueza, a mão-de-obra, as praias, os monumentos, os museus. Um desejo imperialista que se mantém, talvez, que nos constitui – quem sabe. Lembra que apontaram a minha resistência em moralizar na defesa de tese? Pois bem, cá estou eu transformando em hipótese o que poderia ser conjectura.

Mas, de todo e qualquer modo, a estátua aponta para um dos pontos cardeais altivas. A despeito da orientação ser sempre o norte, penso que ir já é um aventurar-se bastante grande. Ir para o norte é o que as caravelas faziam, hoje nós vamos. Percorremos. Ganhamos território e expandimos. Cada um para um ponto diferente, na distância que impõe ao coração a necessidade de unir. Acho que é isso, porque a estátua é de níquel. E metais não sentem frio, nem medo, os sentimentos que um bom navegador não se deve permitir sentir. A despeito disso, nós somos humanos, graças a Deus – com a possibilidade de ter raízes e sentir saudades, apesar de gelidamente apontarmos.

Deixo-lhe a réplica do desafio fotográfico como pergunta.

20130906-131955.jpg

O que é que vês?

Com açúcar, com afeto,
S.

Em resposta a: João/Stefano #6

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