João/Thomaz #20

Querido Thomaz,

Percebi o que você quis dizer com “efeito assombroso” em relação às lacunas da última carta. Não foi intencional, como você disse. Mas acho que, no final das contas, acabou sendo bastante apropriado. Quanto mais escrevo sobre esta viagem, e quanto mais me exponho aqui para quem quer que espione nossa correspondência, mais sinto que esta temporada na Dinamarca e esta narrativa não são só sobre mim e não pertencem só a mim. Eu espero que seja assim.

Mais uma vez, obrigado pelas músicas. As escolhas foram ótimas. Não sei se te falei, mas sabe quais foram os únicos álbuns de música brasileira que trouxe para cá? Clube da EsquinaA Tábua de Esmeralda. O meu favorito e o meu segundo favorito. Ou o meu favorito e o seu favorito. Como você preferir.

Acabo de ter minha primeira aula na faculdade. Foi uma introdução à História da Dinamarca. Bem legal, mas tenho pouco a dizer sobre ela além disso.

Envio aqui a carta que te escrevi esta semana. Ao final, as fotos do passeio de domingo pela Strøget, a rua de pedestres, para deixar a carta menos chata. Dizem os dinamarqueses que é a primeira rua a ser fechada para pedestres na Europa. Mas os dinamarqueses dizem que são os primeiros a fazer tudo na Europa/no Norte da Europa/na Escandinávia. E tendo vivido em Campinas, em São Paulo, no Brasil, nós já conhecemos bem essa história.

Acho relevante, no entanto, o fato de que os dinamarqueses se gabam de ser os primeiros, enquanto nós nos gabamos de ser os maiores.

Mas divago.

— — — —

Copenhague, 3 de setembro de 2013.

Querido Thomaz,

Ontem eu fiz um calendário do semestre com todas as matérias que vou estudar aqui. Caso você não lembre, elas são:

– Course in Danish Culture (15 ECTS)

– Søren Kierkegaard and the Challenge of Existence (15 ECTS)

– Danish Cinema (15 ECTS)

– Nordic Mythology (15 ECTS)

– Danish Language Course (7.5 ECTS)

Enquanto conversava com meus colegas sobre as nossas disciplinas, houve duas reações às minhas escolhas que mais me chamaram a atenção.

1 – Isso dá 67.5 créditos, mais do que o esperado para dois semestres!

2 – E se você acabar não gostando da Dinamarca?

Pouco tenho a dizer sobre a segunda reação. Eu, e nós brasileiros em geral, temos a mente bastante aberta para com culturas europeias. Some-se a isso o complexo de inferioridade característico de nosso país (parece bobagem, mas aqui vejo que faz a diferença) e o já citado interesse pela alteridade, e acabo tendo uma boa garantia de que esses estudos vão valer a pena.

Além disso, a Dinamarca inventou o Lego.

A avaliação de cada uma das disciplinas (menos do curso de língua) é um texto de 15 páginas. A carga de leitura é de, em média, umas 140 páginas por curso (de novo, excluído o curso de língua). Parece-me bastante trabalho, mas com certeza está muito longe do impossível.

De fato, eu não sabia dessa história dos ECTS, e nem sonhava que havia um sistema de créditos equivalente em toda a Europa, na Oceania e em parte da América do Norte. Acredito que esse seja um exemplo claro da diferença de cultura acadêmica da maioria dos alunos internacionais aqui (que é da América do Norte e da Europa) para conosco. Eles parecem dar muito mais atenção ao tempo de estudo e de escrita, à vivência na faculdade e aos eventos que nela acontecem do que às disciplinas em si. Não sei como julgar isso ainda. Estou mesmo feliz com minhas matrículas.

A propósito, o Rancière vem aqui no dia 13. Ele vai participar de um debate na Black Diamond, a Biblioteca Central da Universidade de Copenhague, junto com um filósofo alemão que não conheço (risos). Obviamente, quando acontecer, eu te escrevo sobre o assunto.

Eu ainda não acredito que não encontrei ninguém do curso de mitologia nórdica. Ele é o que me deixa mais empolgado com o semestre. Imagine só minha empolgação ao ler sobre aulas como a do dia 3 de outubro:

Lecture 4:    Death

(Oct. 3rd)      The only direct eyewitness to Nordic rituals was an Arabic scholar named Ahmad ibn Fadlan, who saw a Viking funeral in 922 or 923. The description is rightly famous as it is breathtaking. It is possible to corroborate a few of the details with Nordic sources and provide a reasonably solid introduction to the Viking view of death.

(Bettina Sejbjerg Sommer)

                      Expected reading in binder: Ibn Fadlan

Comprei os materiais dos cursos hoje e já fui direto para esse relato. “Breathtaking” descreve bem. Devo mencionar que parte do currículo dos cursos, e da avaliação deles, são excursões em grupo. Neste curso, por exemplo, vamos para o cemitério viking em Roskilde e para um sítio megalítico na Suécia (Ales Stenar). O Course in Danish Culture tem catorze aulas e cinco excursões no total. Seria legal se existissem cursos assim na Unicamp.

Materiais dos cursos

Materiais dos cursos

De qualquer forma, estou bastante ansioso.

Abraços,

João G.

— — — —

Estátua do Arcebispo Absalão, o Tywin Lannister da Dinamarca

Estátua do Arcebispo Absalão, o Tywin Lannister da Dinamarca

Entrada da loja da Lego

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Estacionamentos bagunçados de bicicletas: uma visão comum aqui

Estacionamentos bagunçados de bicicletas: uma visão comum

Esse azul meio piscina + tijolinhos são o padrão aqui.

Esse azul meio piscina + tijolinhos são o padrão aqui.

Strøget

Strøget

Aguardo sua resposta.

Saudações,

João G.

Em resposta a: Thomaz/João #19

One thought on “João/Thomaz #20

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