Thomaz/João #17

Pindorama, Agosto de 2013

Meu caro amigo,

Quando me aproximava do final  da sua carta, não pude deixar de pensar (desculpe-me): “famous last words“… Considerando que a tétrica sensação veio depois da atribulada narração de suas peripécias picarescas pelas calçadas de Copenhagen, sinto que essa viagem já começa a reunir material suficiente para a redação posterior de um desses romances semi-auto-biográficos com a estrutura de uma comédia de erros (desculpe-me outra vez) ou de uma verdadeira odisséia de desencontros. El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha e Sancho Pança. The History of the Adventures of Joseph Andrews and of his Friend Mr. Abraham Adams. As curiosas aventuras de Pudim e seu vizinho Atchim. O que também pode ser o nome de um livro infantil. Ok, agora chega.

Brincadeiras à parte, diante da quantidade de informação que você já passou adiante nessa primeira carta, fiquei pensando que talvez tenhamos que suspender o padrão carta-resposta-carta-resposta, pois você terá muito mais a dizer do que eu, e assim virão, talvez, João/Thomaz #18, João/Thomaz #19, João/Thomaz #20…

O viajante está sempre em contato com o novo, com novas experiências que ele mesmo precisa processar, no que a escrita com certeza ajuda bastante. Mas o que a pessoa que fica conta para quem partiu? Talvez em outros tempos coubesse mandar notícias da pátria, mas a internet tornou esse expediente obsoleto. Ainda temos os copyrights de nossas próprias vidas relativamente assegurados, o que abre espaço para contar sobre como as coisas vão conosco (caso o Obama não te conte antes, rs).

Pensando nisso, lembrei de duas canções em forma de carta. Numa delas, Meu caro amigo, Chico Buarque manda para Augusto Boal, que estava no exílio, notícias do Brasil.

Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita,
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita.

Na outra, Carta ao Tom/Carta do Tom, encontramos a mesma mistura de humor e melancolia.

Rua Nascimento Silva, cento e sete
Você ensinando pra Elizete
as canções de canção do amor demais
Lembra que tempo feliz, ai que saudade,
Ipanema era só felicidade
Era como se o amor doesse em paz
Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
este Rio de amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era mais bela
e além disso se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor
É, meu amigo, só resta uma certeza,
é preciso acabar com essa tristeza
É preciso inventar de novo o amor.

Longing. Sentimentozinho definidor da nossa humanidade, né não? Acho que vou adotar essa de te enviar umas músicas da terrinha enquanto você estiver por aí. Quem sabe você não converte uns dinamarqueses para o culto dessa nossa imensa herança cultural?

Abraço,

Thomaz

Em resposta a: João/Thomaz #16

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