João/Thomaz #16

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Moro aqui

Copenhague, 26 de agosto de 2013.

Querido Thomaz,

Estou datando a carta porque estou mais ou menos sem Internet e não posso publicá-la imediatamente. E incluo o local porque é maneiro. São 20h09 aqui, 5 horas mais tarde que no Brasil, e faz um calor agradável com sombra fresca.

Não quero me demorar muito nisso, mas a falta que você sente pode dar um indício do que eu estou sentindo agora. Fiquei muito feliz por dar um último abraço em você e na Ana antes de partir, há pouco mais de um dia. Não só por ser um paliativo para as saudades, mas porque me lembrei de que vocês vão continuar perto um do outro nesses seis meses.  Assim, nem você nem ela se sentem tão sozinhos quanto poderiam com todas essas partidas. Ainda mais a Ana, que já foi pro Canadá.

E que essas cartas e a Internet nos mantenham provisoriamente próximos nesse tempo. Ia dizer isso na outra carta, mas acabei esquecendo: passarão os céus e a terra, mas não passará o fluxo de links no nosso chat do facebook (amém).

Quanto à minha busca, acredito em você. Vou te dizer uma coisa. Apesar do que escrevi na minha última carta, meu primeiro dia aqui foi bem diferente do meu primeiro dia na NZ. Eu cheguei a Copenhague depois de dois voos longos, ansiosos e mal-dormidos. Passei na imigração e em cinco segundos estava no saguão do aeroporto. Só entendi o que estava acontecendo quando vi um bando de jovens gritando Velkommen e balançando bandeiras dinamarquesas na chegada dos voos internacionais (não pra mim, obviamente). Não vi quando carimbaram meu visto provisório no passaporte, mas ele está lá.

Nesse momento, teria sido bastante razoável eu dar um tempo para respirar aliviado e descansar um pouco (já eram mais de 20 horas desde Campinas) mas, graças aos deuses nórdicos, não o fiz. Segui com o curso planejado: acabou a viagem de avião, começou a corrida para pegar a chave do apartamento antes do fim do expediente (senão teria que arranjar acomodação para o pernoite e pegar a chave no dia seguinte). Eu tinha duas horas. Cheguei na secretaria de atendimento ao aluno com dois minutos de folga. A maior parte da enrolação deveu-se à soma do meu previsto calvário carregando a mala de 28 quilos com as informações contraditórias do meu mapa e das pessoas na rua.

A essa altura, eu já me chateava bastante com Copenhague, e comigo mesmo através da cidade. Não se engane, as ruas pelas quais eu estava andando são magníficas, mas a companhia desagradável da mala estragava tudo. Chegar em Auckland, em comparação, foi tão simples quanto ler uma plaquinha com meu nome no saguão do aeroporto, ir até a van que ela indicava (com outra brasileira) e chegar na casa de um amigável veterano do rugby que acordou de madrugada para tomar chá e conversar comigo numa língua que eu falo.

No atendimento ao aluno, eu peguei uma senha e depositei o fardo ao meu lado (uns minutos depois, percebi que podia ter deixado na rua mesmo; quem conseguisse carregar aquilo embora merecia levar meus pertences como prêmio). A secretária, simpática, (reconheci-a de uma foto na página internacional da universidade), perguntou: Is there any international student out there? Eu levantei a mão. Please take a breath, you just made it, ela respondeu ao ver minha situação. Se eu precisasse subir mais um degrau com a mala, começava a chorar ali mesmo.

Saí de lá com a chave e o RA e, pra acabar com a tortura, chamei um táxi. Pelo preço, o próximo vai ser daqui a seis meses. Eu não sabia se o taxista era italiano ou turco. Só tive certeza quando ele não conseguiu achar o meu apartamento e começou a praguejar balançando as mãos.

Desisti de esperar o taxista achar meu prédio e desci, invocando Thor e Odin para conseguir arrastar o trambolho mais algumas ruas. Reli o endereço um pouquinho, segui mais algumas explicações erradas de dinamarqueses (eles têm um sério problema com lateralidade) e cheguei nessa porta. Imagem

Esse aparente espirro em cima do meu nome é, na verdade, o meu colega de apartamento. Ele ainda não apareceu, mas já sei algumas coisas sobre ele. Ele deve estar aqui há mais tempo, pois deixou alguns livros-textos na sala (que é o meu quarto). Também deve ser muito organizado, pois afora os livros e um cobertor da British Airways (acredite se quiser, ele também roubou um), meu quarto está limpo. O banheiro também. Tem comida no armário da cozinha e a louça está toda lavada. A casa está bem abastecida de produtos de limpeza e higiene. Não toquei na porta do seu quarto. Estou esperando que ele chegue logo e me ajude um pouco com as coisas. Caso isso não aconteça, já passei meu endereço para a outra aluna da Unicamp que está aqui há dois dias, e pedi que ela me encontrasse assim que possível.

O apartamento não tem Internet e meu celular ainda não funcionava quando cheguei, o que me levou, logo que entrei no apartamento, a um breve momento de desespero intercambístico (o que estou fazendo aqui tenho que voltar imediatamente cadê minha mãe cadê meu pai eu vou morrer); mas então eu lembrei que tinha acabado de vir da universidade na região Norte da cidade, cheia de cafés e de Wi-Fi. Meu celular voltou a funcionar no caminho pra lá e falei com minha família pela primeira vez desde Guarulhos. Fiz amizade com os donos de um café pequeno e bem localizado. Uma pena que (pra variar) é bem caro. Eu só precisava mesmo dos 20 minutos de Internet. Copenhague está começando a ficar interessante de novo.

(Com um sobressalto, ouço tosse e o ranger de móveis no quarto fechado).

21h20, escurecendo enfim. Nos falamos depois.

Abraços,

João G.

PS.: agora que vou conseguir enviar a carta, são 11:20 do dia seguinte. O barulho no quarto foi um alarme falso: tinha esquecido de que ouvimos todos os vizinhos  e o elevador ao mesmo tempo num apartamento. Fiquei esperando meu asiático colega aparecer e percebi que estava exausto. Acordei hoje, sozinho ainda, e estou passeando pela cidade. Assim que puder, mando mais notícias.

Em resposta a: Thomaz/João #15

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