Thomaz/João #15

Meu amigo,

O vídeo do Sebastião Salgado estava aqui nos meus favoritos desde o dia em que você me enviara, esperando para ser visto. Depois da sua carta, finalmente voltei a ele, tentando entender o que você desejava dizer. Aquilo que você resumiu como alienação da natureza e da arte, eu acredito, é um sentimento que fala a todo ser humano que volta o olhar para o abismo que existe entre nós e o mundo (e o mundo são os outros), abismo que tentamos superar através da linguagem.

Neste momento, enquanto escrevo, tento “superar através da linguagem” o sentimento que tomou conta de mim nestes dias de despedidas. Talvez superar não seja a melhor palavra. Talvez eu devesse falar em transformação, em transformar esse bloco sólido de sentimento dentro de mim em um fluxo mais natural…

Cada pessoa que parte deixa um buraco dentro da gente. Talvez em nenhum outro caso seja mais apropriado falar do vazio como algo que de fato existe. A ausência de alguém querido é algo que dá pra pegar nas mãos, observar de vários ângulos, sentir o peso que tem.

Você está indo para a Dinamarca. Quando paro para pensar longamente no assunto, uma espécie de dor feliz toma conta de mim. Quem diria que de estranhos conhecidos no ensino médio nos tornaríamos tão próximos? God has mysterious ways. Ele sempre inventa maneiras de aproximar as pessoas que precisam estar próximas, mesmo que depois elas precisem se tornar distantes. Você é um dos meus melhores amigos, e foi tão constante em minha vida nesses últimos anos que só agora me dou conta de que precisarei aprender a não contar mais com sua presença como algo dado. Que estas cartas possam cobrir a distância que nos separará.

A Júlia vai viver uma nova aventura em Portugal. De todos nós, ela é a que mais viajou, a que mais deixou-se levar pelo mundo, a encontrar pessoas e lugares. Ela é o tipo de pessoa que faz naturalmente aquilo que o navegador Amyr Klink diz que todo mundo deveria fazer: ir lá e conhecer os lugares dos quais só ouvimos falar, dar-se ao trabalho da viagem, experimentar diretamente o outro lugar. Tenho visto pouco a Ju nos últimos tempos, mas o mesmo pode ser dito de quase todo o nosso grupinho da faculdade. Mas quando a Ju aparece parece estar sempre de passagem. Um passarinho que passa voando e proporciona um sorriso antes de sumir.

O Stefano, talvez mais do que todos, vai embora pra ficar. Terá estudo, emprego e perspectivas de vida. Esse um ano do intercâmbio facilmente vai se converter em dois, em seis, em muitos. A presença constante dele em minha vida fará falta, mas ele segue um caminho que está traçado, vai no embalo de todo o seu talento, sua dedicação, seu esmero e diligência naquilo que faz. Ele já voa alto porque seu destino é o céu.

Meu amigo Léo também foi para a França. Ele estava morando longe de Campinas já há alguns anos, estudando em outra cidade. Se isso permitiu que nos acostumássemos com a distância, esse acostumar-se não será suficiente para desmontar a saudade, quando a extensão de sua ausência passar a meses.

Meu amigo João está indo para a Itália. É para ele um sonho antigo, e representa, nesse momento da vida dele, uma espécie de recomeço, um sopro de ar fresco, de céu azul e sol quente para que ele possa reavaliar a si mesmo e todos aqueles que lhe são caros. A vida vai seguindo e nos coloca, muitas vezes, em lugares que não imaginávamos. Cabe-nos descobrir a topografia dessas paisagens espirituais, cujo mapa não possuímos mas que precisamos, apesar disso, desbravar.

Meu amigo Felipe não vai sair do país, mas está se “mudando” para trabalhar em BH. Ao invés de ficar longe de uma só vez, durante um espaço bruto de tempo, sua ausência será aplicada em doses semanais, quinzenais, mensais. Ausências desse tipo são mitigadas pela perspectiva de uma “cura” mais iminente para a saudade, mas nem por isso deixam de ter sua cota de tristeza. O Felipe, como os outros, vai procurar a felicidade, a realização de sonhos e expectativas que, neste momento, não se encontram aqui.

Essa lista de ausências me fez lembrar do catálogo das naus na Ilíada. Homero canta com sua linguagem áurea os nomes de todos os povos que foram lutar em Tróia, e também de seus líderes. Os nomes dos homens que se lançaram ao mar em busca de um objetivo um pouco vago em uma terra distante. Me fez lembrar, também, da outra parte da história, quando esses homens tentam voltar para casa. O poeta grego Konstantinos Kaváfis, quase 3 mil anos depois de Homero, colocou em versos breves, diretos e comoventes o que significa uma viagem. Nas palavras de José Paulo Paes, um dos tradutores do poema para nossa língua:

Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrará
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

No retorno, João, você saberá porque partiu.

Abraço,

Thomaz

Em resposta a: João/Thomaz #14

One thought on “Thomaz/João #15

  1. Pingback: João/Thomaz #16 | Correspondências

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s