Thomaz/João #11

João,

Suas palavras na última carta parecem ecoar um rumor das profundezas. Sua descrição da mudança e da permanência pressupõe um fluxo ininterrupto com o qual cada um tenta lidar à sua maneira. É esse o fluxo que produz aquele rumor, e ao qual perseguimos incessantemente – sem alcançar. Em nossos tempo de il n’y a pas de hors-texte, não podemos falar em essência, mas talvez possamos falar em âmago como aquilo de inacessível que parece existir justamente porque inacessível. É como a matéria e a energia escuras de uma certa física moderna que, diante da impossibilidade de uma Teoria de Tudo, se depararam com esse Opaco intransponível que, paradoxalmente, justifica todo o resto.

O Pynchon trabalha um pouco com isso no Against the day, ele fala de um “level where dualities are resolved”, onde se percebe que as coisas não são unívocas, monádicas, mas apresentam uma dualidade que é fruto de um núcleo contraditório. As bases não são sólidas, mas perigosamente enganadoras.

Esse mergulho nas profundezas, essa relação entre aparências e, não essências, mas fundamentos, sempre vai me lembrar do David Lynch e da sua exploração desses terrenos sombrios. A obra do Lynch sempre tratou disso, e como consequência tem como um de seus principais elementos o medo. O medo, essa coisa absurda e imensa que nasce da imaginação, da memória, do desconhecido. Não conheço ninguém que molde o medo como o Lynch. Ele consegue produzir uns efeitos que são acachapantes.

Em Twin Peaks, o Agente Cooper, que está na cidade investigando a morte da Laura Palmer, diz pra mãe: “Mrs. Palmer, there are things dark and heinous in this world.” Isso é muito forte, porque Twin Peaks é uma daquelas cidadezinhas americanas suburbanas, cheia de caipiras, rodeada de árvores, onde todo mundo se conhece e parece que os ruídos da cidade grande não podem chegar. Mas na obra do Lynch (e, por que não, em Breaking Bad), esses lugares são sempre cenário para o horror. É forte também porque o Agente Cooper é uma das pessoas mais boas do universo, um homem que ama profundamente a vida, em especial as coisas simples, e que, ainda mais importante, consegue o fato raro, se não inaudito, de ser carismático nestas condições. Mas ele diz aquilo, ele diz que há “dark and heinous things in this world”, e quando ele diz isso dá pra ouvir toda a dor contida nessas palavras.

Comecei a ver o Piloto da série com a Ana (ela nunca viu) outro dia, mas devido ao sono não conseguimos continuar. Além disso, fiquei tremendamente perturbado, muito mais do que da primeira vez que eu assistira. Fui atingido no peito pelos fatos que iam sendo mostrados ali. O Lynch moldou a tela de modo a não apresentar nada senão a força do puro e terrível fato, do fato cheio de arestas, duro ao toque, sem ter por onde pegar.

Pode-se argumentar que o problema era comigo, já que da primeira vez que eu assisti não senti a mesma coisa. Mas eu acredito que a experiência plena da arte exige um processo de sensibilização que é muito difícil de atingir, e que em cada pessoa tem seu próprio passo e seus próprios momentos. Eu precisei ver praticamente todos os filmes do Lynch, ter passado por Twin Peaks uma vez, ter tido experiências pessoais mesmo para retornar ao início da série e sentir o mal estar se instalando à beira do insuportável. Isso tudo pode ter a ver com uma pequena teoria da recepção da arte de que talvez falemos numa carta futura.

Thomaz

[Em resposta a: Thomaz/João #10]

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