Thomaz/Stefano #6

Tefo,

Confesso que fiquei surpreso pela maneira como você entendeu minha pergunta sobre o para onde vamos. Creio que, ao lançar a questão, pensava me referir ao nosso próprio jogo de linguagem, e à maneira como seria possível que ele continuasse, após nosso alegre bonde (ou van filosofia, para citar Laerte Coutinho) ter sido lançado, por este intrépido condutor, contra o muro manchado de um aparente beco sem saída. Por favor, não tome essa descrição como uma declaração presunçosa – é somente a confissão de um estado de espírito. Há coisa que nós acreditamos saber, mas quando finalmente as sabemos (provamos seu sabor) de fato, somos alvo de uma violenta epifania. Se não fui e não sou capaz de expressar com clareza o que se passou, é devido à matéria e à impotência da minha arte (tekné).

E no entanto, se você não respondeu o que eu imaginei ter perguntado, mais uma vez a linguagem e a mente pregaram uma peça, e você respondeu o que eu não sabia que queria saber. Você respondeu a pergunta subterrânea, cuja resposta só poderia ser tão fragmentada e fértil como a sua foi.

Agora, às réplicas.

Não sei se você conhece a série de quadrinhos Sandman, do escritor britânico Neil Gaiman, mas os personagens centrais da séries são os Endless (Perpétuos, na versão brasileira), personificações de sete conceitos universais: Destiny, Death, Dream, Destruction, Desire, Despair e Delirium (que já foi Delight). Em uma das histórias contadas por Gaiman, ele usa uma imagem muito bonita do Destino, ao dizer que à frente dele há infinitos caminhos, mas por onde ele veio, um só.

Isso me faz pensar nesse conceito “óbvio” mas por isso mesmo muito interessante  de que nossa trajetória de vida nos trouxe até aqui (e é isso que nos faz únicos) e de que a partir de agora (o primeiro dia do resto da nossa vida) tudo pode acontecer.

“Interessante” para mim, no caso, significa poder virar ao contrário e ver o que acontece. E se a gente se virar nesse caminho e descobrir que por onde nós viemos há uma infinidade de veredas mas à nossa frente uma só estrada?

Então, me pareceria que essa imagem diria sobre uma certa inevitabilidade de um destino grego, que reserva a cada um sua sorte, ao mesmo tempo em que sugerisse, muito modernamente, sobre a confluência de trajetos que compõe um sujeito caminhante. Discurso, ideologia, memória, imaginação, inconsciente… O que realmente nos trouxe até aqui?

Essa imagem talvez terminasse por mostrar que o Destino de Sandman viu o caminho daquela maneira porque caminhava de costas, sem perceber. E isso inevitavelmente me lembra do Anjo da História que Walter Benjamin viu num quadro de Klee:

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.”

Um visão perturbadora.

Sinto que mais uma vez desviei-me do bom passeio público que se estende ao longo da orla e terminei me enfiando por uma dessas vielas escuras às quais nunca sabemos como chegamos. Devo forçar-me a voltar para onde me perdi de você? Sim, façamos isso.

E assim me ponho a caminho para reencontrar o fio da meada que me estendias do novelo que traçávamos em conjunto. Ele me levará pelos caminhos que me apontaste?

Vejamos:

1. A Vida nunca pediu licença, não é mesmo? Por que a essa altura dela, 20 anos já adentrados, seria diferente? Tenho a impressão de que não somos nós que percorremos a vida, mas é ela que nos percorre, implacável. Inevitável, como você disse. Não é possível resistir-lhe ou dizer não. Talvez à medida que batamos a cabeça em sua couraça dura possamos fazer surgir uns arremedos de o que quer que seja que ela nos reserva.

2. Para a geometria euclidiana, uma reta é a menor distância entre dois pontos. Também é, curiosamente, a imagem do mais perfeito labirinto borgiano. Em “A Morte e a Bússola”, o criminoso que arma (como um brinquedo de armar) a conspiração para assassinar Lönrot fala do labirinto que é uma linha reta. “Nessa linha perderam-se tantos filósofos que bem pode perder-se um mero detetive.”, diz. Trata-se da linha do paradoxo de Zenão, um desses temas obsessivos de Borges. E no entanto, a geometria não-euclidiana supôs coisas novas a esse respeito. Se o espaço é curvo, uma reta pode ser infinitamente mais distante do que uma aparente errância…

3. Pareço-me a mim mesmo ter-me armado uma armadilha. Não estamos sempre fazendo isso? Atabalhoados, apressados, a procurar não sabemos bem do quê. Abrindo caixas aqui e ali, só para encontrá-las vazias, cheias de fantoches, de ilusões.  Não podemos ouvir o ruído da canção que nos chama para casa, mas ainda assim o ouvimos. Corremos, corremos, e quando menos esperamos, num tropeço – uma pedra no meio do caminho, afiada, que parece nos lançar em direção ao riacho que corre pelo quintal – encontramos a Alegria.

Abraço forte,

Thomaz

[Em resposta a: Stefano/Thomaz #5]

 

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