Thomaz/João #9

João,

Esse ver-o-outro e tornar-se-humano de que você falou me encanta profundamente. Mudar o foco, desviar o olhar das paisagens a que estamos condenados e voltá-lo para outras topografias mentais. E no entanto, se esse vasto mundo-outro é um convite a abrir os olhos, por vezes sinto-me dobrando sob o peso da HISTÓRIA.

Não sei definir muito bem o que quero dizer com isso, mas por vezes sinto um profundo cansaço da minha própria humanidade e todas as escolhas que poderia fazer enquanto homem se confundem num penoso tédio. Preferiria nesses momentos ser um animal e seguir o simples e direto caminho do instinto, com suas simples dores e simples prazeres. Friso que esses são momentos, que em geral me acometem nos momentos de maior cansaço, não mais que duas ou três vezes por ano, e raramente com a intensidade que descrevi acima – embora apontem para ela.

É uma sensação que vem se esgueirando sem ser notada e prefere dar o bote no fim do dia, numa madrugada silenciosa e vazia, abrindo espaço para aquelas “noites escuras da alma” em que nada parece fazer sentido e tudo parece ser vão. As noites que nos guardam aporias que só o sono pode sepultar até que a manhã traga um novo ânimo. Situadas em meio às expectativas, dúvidas, medos, alegrias, amores, prazeres, deveres e preguiças da vida desperta, em meio às belezas e ao bem e também às injustiças e revoltas, noites como essa talvez sejam um contraponto essencial, a hora de entender o que é a angústia e, como o Eclesiastes, enxergar em tudo uma grande dissipação, à qual opor o sentir-se vivo e o dever viver dos aconchegantemente atribulados dias de labuta.

Talvez a grande questão da humanidade, a única, seja a Alteridade. Tudo mais pode ser subsumido em sua sombra, até mesmo a morte, como Heráclito parece implicar, segundo o que li recentemente em um livro que reunia seus fragmentos comentados. Morrer é negar-se, deixar de ser-se para não-ser outro.

As noções modernas de identidade pareceram acabar com a subjetividade e a autonomia. Temos a impressão de encharcar-nos do vinagre do mundo enquanto nós mesmos vamos evaporando… É o anti-solipsismo, achar que não se existe. Que se é somente uma função a reproduzir padrões e leis de funcionamento pre-ordenadas.

Onde está o eu? Se, como Italo Calvino propõe em Palomar, somos janelas através das quais o mundo vê o mundo, podemos imaginar também como membranas através das quais passa o fluxo das coisas. Como estações de uma rota da matéria onde os átomos se demoram para tomar impulso. Seríamos breves, quase sem espessura, mas essenciais.

O que talvez seja um alento.

Saudações perplexas,

Thomaz

P.S.: Uma carta como essa é o motivo pelo qual quis escrever cartas, para começar. Não é preciso concluir, podar, fazer sentido… Tudo é provisório e implícito. As coisas estão aí e talvez no diálogo as entendamos.

[Em resposta a: João/Thomaz #8]

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