Stefano/Thomaz #5

Thomaz,

Brevemente: o trabalho e a vida me impediram que revisitar o universo cibernético por alguns dias, por isso a ausência. Ainda que eu pudesse alegar ter-me omitido pela aspereza em engolir suas palavras últimas; seria deveras poético, mas ainda assim uma mentira.

No entanto, confesso que suas palavras me geraram tontura – não necessariamente no mesmo sentido que você afirmou, talvez nem na mesma proporção, ainda assim uma tontura. Uma aflição de não saber como ao certo penetrar na dura derme de seus fragmentos. Pensei, em primeiro momento, de comentar cada um dos fragmentos separadamente. Vetei-me, ou melhor, deletei-me; optei por outro caminho, na verdade, o caminho que você mesmo m deixou aberto:

Para onde nós vamos agora?

Tenho para essa pergunta três respostas possíveis, que não são necessariamente três estilhaços de fracasso, ainda que não sejam necessariamente três verdades universais. São, de fato, conjecturas – ideias que me são recentes e caras também, por isso discrimino-as neste instante, sem a certeza que serão ou não suficientes. Até por que certas dúvidas não são decifráveis assim tão fácil, não é mesmo? Tentarei, de alguma forma, tangenciar caminhos de resolução.

1ª: Estamos indo para a vida

Definitivamente, isso é uma dessas verdades universais vazias que são, geralmente, recitadas aos quatro cantos do salão em dia de Colação de Grau: “o final da Graduação é o começo da vida”. Chamar a fase tida como adulta como a representação da Vida é uma metonímia que, de certa maneira, vai contra as ideias todas de processo contínuo de formação. Aliás, acho que a Vida é algo maior do que a nossa própria existência, mas enfim: tomemos a fase adulta como a vida. Começamos, então, essa nova fase – é para lá que estamos indo. E vamos para lá a toque de caixa, mesmo sem vontade ou fazendo corpo mole, afinal esse é um destino que não compete a nós, ainda que nos defina também. As fases do percurso humano nos acometem como doenças silenciosas: imprevisíveis.

Ir para a vida é um processo ruim? Tem suas peculiaridades positivas e negativas, mas sobretudo é inevitável. E eu não considero esse um processo poético, mas sim biológico, social, econômico, porque compete ao fato de ficarmos mais velhos, pagarmos contas, gastarmos o próprio dinheiro, ter um carro, um emprego, uma família, filhos, um cachorro, um pé de fruta. Não, não tenho a pretensão de dizer que a vida é simplesmente um processo bruto como a existência de uma drosófila, mas por isso mesmo dividi o caminho que percorreremos a partir de agora em três.

2ª: Estamos indo para Lá

Lá? Sim. Veja bem, toda trajetória começa Aqui – e não interessa situar esse ponto no Espaço-Tempo neste momento – e termina – se terminar – Lá. É o outro ponto da linha. Não é assim, porém, tão trivial falar do lugar para onde vamos, porque, para mim, não é o mesmo sempre e está em constante mudança o tempo todo. Um exemplo simples: quando eu entrei em Letras, eu achei que sairia Poeta, com dois livros debaixo do braço e uma vida de palestras e lançamentos garantida; no entanto, encontro-me agora com propostas de intercâmbio, Semiótica dentro da cachola e uma série de conclusões a respeito do(s) Sentido(s), inclusive na Arquitetura. Onde é meu Lá agora? Agora, nesse exato momento, em Paris – e nem isso é definitivo. É um sonho, uma proposta. Uma idéia. Digamos, um rumo. Temos um rumo.

Portanto, essa é a contra-metade da Vida apresentada no primeiro tópico. Ao passo que, por um lado, passamos por um processo animal e biológico que diz respeito aos processos de envelhecimento e amadurecimento, do ponto de vista social, há também um lado mutável e indecifrável, mas completamente construído na temporalidade presente. Aqui, sinto qualquer coisa de Mr. Nobody (2009, Jaco Van Dormael), quando diz respeito dos múltiplos caminhos que poderíamos seguir e todos os portais que poderíamos abrir e fechar. O Lá não é concreto de maneira nenhuma. E assim como a poesia, se pensada do ponto de vista das Funções da Linguagem de Jakobson, o Lá se importa com a Mensagem. Não com os fatos em si, porque as categorias – Crescer, Casar, Ter filhos, Ter uma carreira, Fazer dinheiro, Ser feliz, Morrer – podem ser atingidos de formas das mais múltiplas possíveis. O Lá nos permite, como poetas, brincar com a existência e construir a linguagem com a qual contaremos nossa experimentação.

3ª: Estamos indo para o Lar

Enquanto a Vida e o Lá são, ainda que contra-metades, constituintes da Existência concreta, existe um outro lado que não é físico. De fato, faz parte de nossas bases filosóficas-religiosas e de criação falar sobre uma constante caminhada rumo a um lugar que transcende. Definitivamente, estamos indo para um lugar que nos levará além de nossa própria materialidade, mas para isso é preciso caminhar – e mais do que isso: é preciso ultrapassar a Vida, o Lá e, ainda assim, ter vontade e disponibilidade de continuar. Ir além é a premissa de chegar de frente para os portais. E então me questiono: mas qual o caminho?

E essa pergunta é universal, constante, pungente. Não caberia aqui a resposta – não que eu a tenha, mas empresto-a da Bíblia. Mas nem assim, emprestada, é trivial. Seguir por Aquele que é Caminho, Verdade e Vida é, sobretudo, um desafio que perscrute a nossa Vida e o nosso Lá. Se eu pudesse sair de minha própria Existência para enxergá-la de cima, gostaria de enxergar as minhas tramas todas convergindo para esse Lugar Infinito.

Quando você diz, caro, sobre amadurecimento, para mim é o reflexo de um contínuo caminhar (ou Caminhar) em direção a esses três lugares. Agora, se deseja saber se eu sei defini-los com maior precisão no Tempo-Espaço, peço licença para não responder. Não porque eu saiba e deseje omitir, mas é porque eu não sou Senhor da História e não me compete a onisciência. No entanto, vou para a França, em busca do Lá. do Lar. da Vida.

Em busca, acho que essa expressão define a Existência.

Alguma resposta ou vagueei no caminho obscuro da digressão?

Com açúcar, com afeto,

S.

[Em resposta a: Thomaz/Stefano #4]

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