João/Thomaz #8

Thomaz,

Que belo modo de colocar as coisas. Um mundo em que as canções do passado são tomadas por fantasias de mentes menos capazes. Isto é um convite irrecusável a um salto para o nosso mundo. E mais especialmente porque eu sou uma daquelas pessoas que acreditam que há algo de profundamente verdadeiro nas canções do nosso passado. Você pergunta: o que seria de nós sem elas?

Acho que poderíamos começar estabelecendo que a “memória das canções” não está numa fase tão ruim como se poderia pensar. Nós temos ouvido recentemente que Ovídio está em alta, e é lindo saber que esse poeta é redescoberto praticamente a cada geração desde a sua própria. O mesmo acontece com Rumi. Se nós falamos em problemas com relação ao esquecimento dessas canções, falamos de divulgação numa escala que outras gerações não conheceram. Falamos das dificuldades de desbravar um território totalmente novo.

Outro ponto importante a ser reconhecido: o mundo sem as canções do passado não é impossível. A perda dessa memória não vai provocar o apocalipse. Nós sabemos que muitas “canções” já foram esquecidas por muito tempo e isso não causou diretamente nenhum dano ao bem-estar da sociedade. Afora isso, há as canções que se perderam e das quais nós nunca vamos saber. Virgílio é importante? Acredito que tenham existido milhares de Virgílios dos quais nós nunca ouviremos falar.

Os que dizem que o fim dos estudos, digamos, do galês medieval provocará a destruição da sociedade estão fantasiando em autodefesa. Se o conhecimento da língua original do Mabinogion se perder, o que resultará é um mundo sem Mabinogion. Não parece afetar a vida de muitas pessoas. Eu me lembro da comunidade ao redor da siderúrgica no Princesa Mononoke de Miyazaki: uma sociedade igualitária, unida, auto-sustentável e que salvou muitas pessoas da marginalidade. A ausência de deuses, de natureza e das “canções do passado” não impede o seu funcionamento.

OK, mas então qual é a importância das canções? Não sei se tenho uma resposta definitiva, mas tenho uma citação que parece se aproximar bastante do que eu sinto (e que você também já conhece):

A experiência literária cura a ferida da individualidade sem arruinar seu privilégio. Há emoções de massa que também curam a ferida, mas destroem o privilégio. Nelas, nossos seres isolados fundem-se entre si, e afundamos de volta à subindividualidade. Mas lendo a grande literatura, torno-me mil homens e ainda permaneço eu mesmo. Como o céu noturno no poema grego, vejo com uma miríade de olhos, mas ainda assim sou eu quem vê. Aqui, tal como no ato religioso, no amor, na ação moral e no conhecimento, transcendo a mim mesmo. E nunca sou mais eu mesmo do que ao fazê-lo.

O homem que se contenta em ser ele mesmo e, portanto, ser menos, vive numa prisão.

C. S. Lewis, Um experimento na crítica literária

Eu acredito que o conhecimento e a admiração das canções do passado tem o poder de nos tornar mais humanos pela alteridade. Isso é tudo que eu posso dizer. Sem elas, perdemos um pouco daquilo que provisoriamente chamo de “sentimentos” dos nossos antepassados, e com isso, um pouco da nossa humanidade. Não é um passo atrás como o do esquecimento da História, que nos leva a repetir os mesmos erros. É o esquecimento que nos inscreve em (nos condena a?) uma esfera menor de experiência humana.

Fraternos abraços,

João G.

[Em resposta a: Thomaz/João #7]

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