João/Stefano #5

Querido Stefano,

Pelo que me lembro, a falácia de apelo ao antigo consiste em (ai, as chatices das definições) dizer que uma ideia defendida por uma fonte antiga, ou mais antiga do que outra, é boa, ou melhor que outra, por esse motivo. Não pense isso de mim. Isto, em relação ao pensamento medieval, de forma alguma eu sustento. Quero que fique claro: não há razão lógica alguma para que eu me sinta atraído pela Idade Média. O que posso dizer é que algo na visão de mundo (ou devo dizer no mapa do universo?) medieval responde a alguma vocação profunda em mim que me escapa à consciência. A lógica está a léguas desse mundo.

Vou aproveitar que você tocou no assunto para expor algumas das minhas ideias sobre esse revival da Lógica Formal aqui. Peço desculpas se me alongar no assunto, mas é que já estou vendo algumas repercussões perigosas dessa tendência e gostaria de me manifestar sobre elas. Esta também não é a reação a uma crítica (eu entendi o que você quis dizer); apenas a minha perspectiva, que quero discutir com você, sobre um fenômeno.

Existe uma teoria, a qual não aceito, que propõe um certo comportamento humano como uma constante universal, às vezes até como um instinto biológico. Esse comportamento seria o costume de argumentar para vencer um debate em vez de para refletir de maneira frutífera sobre uma questão. Esse costume é típico de umas certas pessoas que estudaram um pouco — às vezes bem pouco — de lógica formal e superestimam seu poder, ou simplesmente não entendem seu propósito. Mas não cito a teoria só por isso. Cito porque a teoria em si é um exemplo do que esses pseudo-logicistas (doravante antalógicos) estão fazendo: emprestando o estatuto de critério de verdade a uma simples ferramenta de pensamento.

Os antalógicos não usam a lógica como uma ferramenta de crítica ou de autocrítica. Não, meu caro amigo, a intenção deles é bem clara. Quando um antalógico faz um post em seu blog mostrando falácias no célebre discurso de Caetano Veloso intitulado “Você é burro, cara” com o objetivo de comprovar a irracionalidade dos “esquerdistas médios”, o que ele está querendo dizer é: eu sei mais de lógica do que você, portanto eu estou sempre certo. E nisto está cometendo quatrocentas mil falácias de uma vez (um antalógico provavelmente apontaria que na verdade é só uma falácia, porque antalógicos também costumam se esquecer de que a linguagem é quatrocentas mil vezes mais significativa do que a lógica).

Durante as férias, eu ouvi um curso de Oxford de lógica formal em podcast (não pergunte). Foi um bom curso, me ensinou o que eu queria. O único problema do curso é o título: Critical reasoning for beginners. Quer dizer que para ser capaz de pensar criticamente eu tenho que saber lógica formal? Mas que disparate! Muitos adolescentes e até crianças são capazes de escrever longos textos, limpos de falácias formais e informais, valendo-se apenas do senso comum que adquiriram em fóruns de Internet. Por outro lado, Olavo de Carvalho é um dos grandes especialistas em lógica formal no Brasil. Imagine.

Em tempo: a lógica dispõe de meios e princípios para que ela mesma possa brilhar sem o sacrifício do bom senso. E os bons logicistas de verdade fazem uso dessas ferramentas. Mas eu dificilmente acreditaria que o antalogicismo provém de uma ingênua falta de prática com argumentos reais em discussões genuínas. Ninguém se faz cego para com o bom senso e supervaloriza a forma de pensamento que lhe convém sem um certo interesse. Um antalógico está disposto a prejudicar a reputação da própria lógica como disciplina para decretar que as suas palavras é que são verdadeiras. Isso tem nome: egoísmo.

Por isso, acho muito válido, Stefano, o que você disse em defesa das falácias. A vida precisa ir além da lógica: às vezes a lógica é uma prisão. Acho que ainda vou propor, como professor de redação, o exercício de analisar uma daquelas discussões cabeludas de fórum dos tempos do Orkut. Há muito mais que se aprender ali, ao menos para alunos de ensino médio, sobre textos, argumentos e estruturas de raciocínio do que em categorias abstratas de lógica.

O que você acha?

Cavalarias e hipertextos,

João G.

P.S.: Não deu tempo de falar sobre meus estudos medievais. Em suma: estão em curva ascendente, pode ter certeza.

[Em resposta a: Stefano/João #4]

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