Thomaz/Stefano #4

Stefano,

Escrevo na urgência de que estas minhas palavras cheguem a você antes que minha última carta. Tô me sentindo um personagem de um romance existencialista. Sabe “A Náusea”? Quando o deslocamento tem um efeito físico, se torna uma sensação inescapável? Quando apertei o “Publish”, depois de mandar aquela carta, senti uma certa tontura, uma pressão na cabeça. Pode ter sido o cansaço, depois de um dia inteiro de trabalho e um excesso de pressão nos miolos. Mas não é nesses momentos de fraqueza que nos tornamos mais vulneráveis ao que insistimos em deixar debaixo dos panos? Nesse caso, penso que foi minha insegurança como escritor, emergindo da minha mente como um jack-in-the-box pra me dar uns tapas na cara. Comecei aquela missiva tentando sair da zona de conforto em que me havia instalado, dando uma floreada nas coisas, fazendo algo diferente. A partir do momento em que não gostei do resultado, crendo-o pouco natural, tentei voltar, mas por algum motivo minha entrada foi barrada. Comecei de novo, na esperança de chegar a algum lugar, mas eu patinava, calçado com meias de seda sobre gelo molhado. Aquelas perguntas foram surgindo: mas é assim que eu escrevo? Eu não considerava ter atingido alguma espécie de maturidade ou ao menos estabilizado meu estilo? Mas e o jeito como eu escrevia antes? Estaria assim tão ávido em abandonar a descoberta? O desespero foi crescendo, uma bolha que impede o ar de chegar aos pulmões. Pensei num jeito de resolver aquilo, talvez fosse melhor apagar tudo. Mas é esse o jeito de lidar com os monstros, deletando-os? Dei um jeito de fazer parecer com que tudo fora mais ou menos premeditado e publiquei. Um minuto antes, tinha a certeza de que ao menos minhas palavras dariam alguma discussão, mas agora… a emenda saíra pior que o soneto! O que acontece quando apontamos nossos mísseis para as fundações de nossas próprias casas? O que resta, depois que as paredes são derrubadas? Toda aquela conversa sobre desfiar e desconstruir me jogara em um estado de desamparo… Só escrevendo (para o João e para a Ana), pude voltar, aos pouco, aos batimentos normais do meu coração. Depois, decidi escrever esta outra carta, um aviso para os desavisados que tentarem se aventurar nos mares do incerto. Penso agora se o que estou fazendo aqui é uma explicação, uma narrativa ou uma resenha da última epístola enviada. Não posso decidir, somente enviar, antes que me arrependa de novo.

Mas faça o favor de responder: Para onde nós vamos agora?

Thomaz

[Em resposta a: Thomaz/Stefano #3]

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