Stefano/João #4

Cavaleiro João,

Começo a gostar da transgressão do vocativo – ou quem sabe de sua multiplicidade e/ou liquidez, conceitos pelos quais tenho tamanho apreço, devo confessar. Outra confissão vai de encontro à sua análise: poeta sou e, de fato, é minha sina tentar o tempo todo extrapolar os sentidos prévios. Sobre essa questão, numa analogia completamente aleatória que me surgiu, relembro de um saudoso professor (mas não me pergunte o nome, pois não me lembro) do IEL que, dando aulas de Gramática, extrapolava sempre contextos possíveis para que os ditos períodos agramaticais adquirissem sentido. Sou, portanto, um desses desbravadores das possibilidades linguísticas – rio-me com a ideia de chamar-me Borba Gato das Letras e ter um monumento mal feito em São Paulo qualquer tempo depois de minha morte. Borba Gato: vejo nas palavras sempre uma floresta densa para ser desvirginada.

E quanto às letras capitais, uma última observação: tenho gostado delas por ora; fazem parte desse mise en scène que construo em minha mente ao escrever minhas cartas. Outro dia mesmo vi em um blog uma extrapolação de como seria Shakespeare nos dias de hoje – um tanto quanto seguidor dessa tendência hipster, óculos Wayfer, a cara de quem frequenta sebos e olhar de quem procura futricar na realidade mais do que deveria, enquanto vislumbra o mundo pela janela do Starbucks. Eis Shakespeare moderno e, por que não?, quem me imagino ser quando escrevo, ainda que pelo computador, uma carta. Essa atividade anacrônica e ímpar que temos desenvolvido.

Mas enfim, dessa vez me alonguei em dois parágrafos meta-linguísticos {esse hífen foi colocado automaticamente pelo corretor que se diz atualizado pelo Novo Acordo Ortográfico. Confio, por isso, nele e mantenho}, se continuar nessa toada logo escreverei um tratado sobre Linguagem e não uma carta pessoal. Aliás, como ri-se por aqui? Risos, assim por extenso? Risos. Façamos uma distinção, então, entre Breves, Prolongados e Gargalhadas. Gargalhadas Descontroladas valem apenas em casos extremos em que o humor for atingido enquanto êxtase. Por exemplo, agora, escrevendo isso me acometo de um mental e contínuo Riso Prolongado. E perceba como essa insistência humana em categorizar se revela sempre e desnecessariamente: já pude inventar três formas de rir-se na carta, com nomenclatura e definição por diferenciação.

Chega de Linguagem, deixo-me deixe-me falar da vida.

De fato, você ama o que estuda. Pude perceber nitidamente isso com a sua última carta – e mesmo porque as palavras pareciam ter sido mergulhadas em um licor doce e inebriante no processo de escrita. Pela primeira vez, caro, entendi que você ama a cavalaria, as armaduras, os bosques, as flechas dos bretões. E ainda que certos juristas (ou outros senhores da retórica) apontariam para você seus dedos e seus argumentos de que, de fato, sua declaração não passa de uma falácia de apelo ao antigo, não importa.

Explico-me, primeiro, porque tocar no assunto do raciocínio falacioso. Nas últimas aulas que tenho assistido na escola em que trabalho, as professoras de Português abordaram com os alunos essa temática e sua problemática para o gênero argumentativo escrito ao qual estão expostos, por causa do Vestibular. De fato, falácias são nocivas para o discurso acadêmico e fragilizantes para as colunas resistentes da Lógica – se pensarmos num mundo objetivado, em que só são válidos discursos pautados na argumentação mais enrijecida o possível.

No entanto, tenho me questionado desde então, se não é da própria falácia que vem a oportunidade de encontrar a certeza. A falácia gera uma dúvida e uma possibilidade, pois se configura como essa quebra da Lógica que estabiliza os meios e os inteiros em harmonia no universo. A falácia, não a mentira, é importante para a condição humana – para que não sejamos máquinas preenchidas de zeros e de uns. Ainda que sua afirmação seja uma argumentação falaciosa, {veja bem que isso não é uma crítica, porque o mundo é constituído assim} é uma das mais bonitas e reveladoras a seu respeito que já ouvi.

Você precisa do Quixote para ser João, entendo por fim. O que está em jogo, pois, não é construir uma argumentação para passar no Vestibular ou convencer alguém de que se deve ou não diminuir a maioridade penal; aqui falamos de identidade, de descoberta, de eixos, de permanências, de falhas e de entregas. Aqui falamos da vida e, ora, não há mal nenhum esquecer a Lógica por uns instantes. Prefiro até que não venham racionalizar e biologizar certas peculiaridades que competem ao campo obtuso das formulações do que, na Idade Média, chamariam Alma.

A condição humana depende das generalizações apressadas e dos raciocínios non sequitur. Precisa do apelo ao novo, ao velho, à Idade Média. Precisa de superstições, de fé, de milagres e explicações que não necessariamente sejam coerentes. Tudo isso constitui o contrapeso da balança que nos impede de cair direto e reto no cibernético apocalipse em que nos tornamos máquinas. E apenas máquinas.

Confesso que a arma bélica que me atinge não vem zunindo do meio de um bosque impenetrável – ainda que me tenha chamado Borba Gato a pouco tempo. Também não estou preso no Templo de Atenas, mas veja só: nem por isso todas as essas questões deixam de me consolidar. Compreender a Hipermodernidade não é tão necessário para estar vivo e interagir interpessoalmente, mas veja que ter passado pela Idade Média é condição inalienável para o momento presente ao qual chegamos.

De fato, somos frutos das cavalarias – em alguma medida, em algum tempo, de alguma forma. Confesso que eu nunca fui fã de História no Ensino Médio por nunca me entender dentro dela. Hoje me entendo, ainda que seja tarde para voltar ao aprendizado juvenil, hoje me entendo parte do tempo passado. Consequência dele e formador de um próximo – que também nos chamará de História.

Aliás, como vão seus estudos sobre as questões medievais? Frutíferos?

Com açúcar bretão e afeto cosmopolita,

S.

[Em resposta a: João/Stefano #3]

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