João/Thomaz #6

Sr. Tuma,

Sim, a ausência de vilões e mocinhos e essa complexidade das antipatias e simpatias é uma das marcas fundamentais de Game of Thrones. E a relação do mundo da série com a fantasia realmente é algo a se pensar. Você o chamou de “quixotesco”, o que faz referência às ambições de alguns personagens pretensamente honradas e, em última análise, duvidosas que se esfacelam de encontro à impassibilidade do mundo real. Há apenas um detalhe que gostaria de contrastar em relação ao romance de Cervantes: o da fantasia.

Pois me parece que George R. R. Martin, em vez de se desviar da magia, ou de se concentrar no fracasso dos que nela acreditam (como de costume na ficção realista), lança-se ao movimento bastante kafkiano de evidenciar o transtorno agressivo da realidade em que a magia de fato consiste(iria). Essa é a perspectiva contrária à que você lançou sobre a série: em vez de um livro de fantasia que se faz herdeiro do romance histórico, vemos um romance histórico realista que trata de um mundo em que a magia realmente existe. É como se os “homens” da Terra-média começassem a falar palavrão, fazer sexo e registrar também os detalhes verdadeiramente humanos e inescapáveis de seu mundo: exatamente aquilo que não se cantava nos poemas dos elfos.

Pois os dragões realmente são feras incríveis, mas o que poderia ser mais violento do que exércitos de milhares ou uma cidade inteira queimados sob suas chamas? E o que poderia ser mais mórbido do que um exército de escravos que não sentem dor? Pense também em Bran e Jojen, que serão eternamente perturbados por visões de outros lugares e tempos, como se já não tivessem traumas suficientes. Ou nos feitos atribuídos a R’hllor, que, por fiéis e submissos que sejam seus seguidores, acabam por representar o caos do sobrenatural sob controle dos homens. Ou, ainda, na sociedade religiosa dos Homens Sem Rosto, que elimina a personalidade de seus membros para que sejam mais capazes de tirar vidas.

No final das contas, a volta da magia que está se encenando é também uma volta de tudo de perturbador, extremo e traumático que o mundo de Game of Thrones parece ter esquecido. Sob certo ponto de vista, a história de Martin é um novo jogo com as oscilações do fantástico; desta vez, com uma envergadura nunca antes vista, abarcando em sua volta toda a minúcia e atenção ao detalhe de um romance histórico.

Fraterno abraço,

João G.

[Em resposta a: Thomaz/João #5]

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s