Stefano/Thomaz #2

Querido/Caro Thomaz,

De uma forma não completamente consciente e direta, ainda mais por que você já havia começado a escrever a carta passada quando recebeu a minha primeira, você acabou respondendo os meus questionamentos acerca da própria dicotomia entre as formas de escrita no papel ou no computador. Aliás, de uma forma tão poética que chegou a emocionar-me. Permita-me citar especificamente o trecho:

É o único jeito dele se ligar a Macondo, dele estar em contato com esse mundo de inocência perdido. Por causa disso, as palavras das cartas que recebe da mãe são como uma revelação.

A carta carrega consigo, de fato, o valor epifânico de um encontro divino, você está certo: todos os momentos que antecedem a chegada do envelope na caixa de correio se assemelham àqueles anteriores ao contato transcendente. Estamos nós também sempre contemplando nossa Macondo de longe, como estrangeiros exilados; pois a vila em que costumávamos habitar, na qual moram cerca de trezentos habitantes também, sempre se aloja no passado. Passado: esse tempo irrevogável e intangível. Macondo só existe porque não a deixamos morrer – e porque chegam cartas em certos momentos, mesmo se à espera delas ou não. E ainda que estejamos perto de todos que constituem nossa salva-guarda, ainda estaremos longe de um outro lugar antecedente: o Lar (ou o Paraíso, se preferir), seja o cristão ou qualquer outro. Afinal, penso que cada um, quando questionado a respeito das questões fundamentais sobre a Origem e o Destino, descreve esse lugar oculto de seus próprios olhos mesclando todas as influências externas as quais teve contato, mas principalmente revelando tudo que lhe promove aconchego. O Lar é, portanto, o espaço secreto em que reside nossa apaziguada alma cansada. E as cartas? Bom, as cartas são os cordões umbilicais que impedem o desgarramento completo das origens, de Lá. Então, posso dizer que entendo agora o valor real das cartas, o qual havia inconscientemente deixado de lado na minha primeira escrita: são saudosistas – mas um saudosismo epifânico. Como encontrar-se com o velho Deus que sempre é Deus, porque não muda – nem na Essência e nem em sua reiterada representação no nosso inconstante e perene caos (da vida e da mente).

Ficamos assim, então: na escrita de cartas como forma de não perder os sonhos. A despeito do tempo que passe ou da distância que se estabeleça entre nós – por viagens, por trabalhos ou pelas intempéries da vida – estaremos conectados. Um cordão umbilical nos alimentando da memória fragmentada dos planos que construímos. E eis aqui uma contiguidade entre nós: quando resolvi-me por Letras foi por Amor à Literatura e por uma crença naïve de que seria fácil, possível e imediato viver de poesia em terras canarinhas. No entanto, assim como você, foi o estudo sistemático da linguagem que castrou-me a poética: passei boa parte de minha graduação sentindo-me um estranho no ninho. Até que encontrei um subterfúgio, um caminho tangente pelo qual senti as borboletas no estômago da paixão de novo. E voltei à escrever poesia; mas acima de tudo: voltei a acreditar que tenho em mim todos os sonhos do mundo. (Obrigado, Pessoa, por lembrar-me sempre dessa condição).

Por isso, precisamos das cartas: para lembrarmos dos dias em que vimos os flocos de neve e também tocamos na superfície alva e afofada. Macondo está em nós e somos nossas próprias oportunidades de epifanias – a espera pelo diálogo que unirá as pontas todas dessa manta que tecemos, ora juntos, ora separados. Essa manta que, na verdade, não é nossa, mas nos enovela também, porque ela data da criação do universo, quando no encontro entre o divino, o etéreo, o eterno e o material houve a fagulha que deu origem a tudo que contemos hoje. Precisamos das cartas para não cairmos no ostracismo de se permitir acomodar com o que tem para o hoje: é preciso de mais. Sempre e constantemente. Ambicioso? Não, deixo a ambição aos economistas envolvidos na Bolsa de Valores. Eu chamaria de necessidade. Precisamos dos sonhos, do metafísico; precisamos do que é raro, do que é distinto, mas que, ainda em tal condição rarefeita, um dia foi a chama que iluminou a escuridão do nosso caos. Então, temos essa incrível e irremediável missão: impedir que rompamos o cordão umbilical que nos liga à leveza dos olhos fechados quando num estado de transcendência.

Esse é o valor da carta, suponho. Ou melhor, sua missão. Nossa missão.

Antes de despedir-me, digo-lhe apenas uma frase, que figura entre minhas preferidas. Peço licença para me igualar à Gabriel García Márquez, posto que eu sou o autor do que direi, mas é algo que escrevi num dos dias em que sentia-me coberto por nuvens da minha própria desilusão. De fato, foi a primeira vez em que eu entendi que o meu vilão era eu e, caso eu não matasse minha própria esfinge, continuaria assim por muito e muito tempo. Escrevi, por fim, um desabafo, uma corredeira que permitiu-me começar (aos poucos) desafogar. Eis:

desanuviar pra ver os sóis.

Os sóis estão aí e por que não podemos ser nós mesmos a assoprar as nuvens uns dos outros?

Com açúcar, com afeto.

S.

[Em resposta a: Thomaz/Stefano #1]

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