Thomaz/Stefano #1

Stefano,

Está chovendo em Macondo.

Esta frase está, de certo modo (talvez não com essas exatas palavras), em Cem Anos de Solidão. Por algum motivo, acho-a uma das frases mais bonitas que já ouvi.

Quando falamos de frases e palavras bonitas, costuma ser assim mesmo. Sempre que me aproximo do assunto, lembro da informação, ventilada naquele filme maluco, Donnie Darko, de que o Tolkien achava “cellar door” a frase ou sintagma ou palavra mais bonito da língua inglesa. Até onde eu sei, ele não foi tão enfático, mas dá pra entender o sentimento. Se você imaginar um inglês pronunciando, “Celador”, fica parecendo o nome de um reino fantástico que o próprio Tolkien talvez criasse. Ao mesmo tempo, lendo assim, tudo junto, em português, soa como uma pronúncia mexicana de “zelador”. Essas coisas que as línguas têm.

Nesse meu caso específico, tenho algumas considerações a fazer sobre a beleza da frase. A começar pela chuva, que sempre me encanta. A chuva é uma coisa bonita demais. Seja quando vem numa garoa no fim da tarde enquanto o sol insiste em continuar aparecendo ou quando ainda só ameaça na forma de nuvens cinzas e de ventos gelados que parecem ser os da mudança chegando e me dão a sólida impressão de estar prestes a tropeçar num outro mundo… Tem também Macondo, um nome muito precioso, por si só uma pequena pérola. E por fim, last but not least, a evocação que essa frase faz de um outro lugar que não aqui, um lugar no qual estivemos e vivemos, um lugar do qual saímos mas para o qual não retornamos. Um lugar do qual temos notícia, onde ainda é possível acontecer a beleza, mas do qual estamos apartados.

Este último elemento talvez precise de mais explicação. Pelo que me lembro, a frase aparece em uma carta que a mãe do Coronel Aureliano Buendía escreve para ele, que está longe, em alguma guerra. Qualquer detalhe a respeito se perdeu para mim, e só o que tenho ainda são essas noções vagas, e a frase, que não se apaga.  Mas a frase me ajuda a lembrar, ela faz o resto emergir, de alguma maneira, e se esse resto não é mais objetivo que um sentimento – qual o problema? Aureliano, ou um dos Aurelianos do livro, está longe de casa há muito tempo, e se comunica por cartas com os seus. É o único jeito dele se ligar a Macondo, dele estar em contato com esse mundo de inocência perdido. Por causa disso, as palavras das cartas que recebe da mãe são como uma revelação.

Isso tudo parece falar do paraíso perdido e seu avatar, a memória. Parece falar, a mim, daquilo que eu não tenho mais. Li Cem Anos de Solidão em uma época diferente da minha vida, uma época em que toda leitura era necessariamente uma descoberta. Amei profundamente o livro, a ponto de colocá-lo em uma lista que fiz com meus dez preferidos. Nunca mais o li, mas ele continuava na lista ano passado, quando percebi que desde que a fizera, no segundo ano do Ensino Médio, pouco ou nada mudara nela. Isso me pareceu impressionante, considerando que eu sou um estudante de Letras, e seria razoável pensar que eu leria, no meu curso, um livro que me marcasse assim tão profundamente, um livro que mudasse minha vida…

Conclui que estudar literatura me fizera perder o tesão por ela, perder a capacidade de descobri-la com alguma pureza. Essa triste epifania me jogou em dias de pura inadequação, de pensar na curva errada que eu devia ter feito em algum ponto do caminho. Mas depois fui percebendo – em conversas com o João, com a Ana -, que o problema não estava tanto na literatura, mas em “mim” – em quem eu fora e em quem havia me transformado. É claro que os livros nunca seriam como foram na minha adolescência, quando eu os estava descobrindo, como se louco de paixão. Minha relação com eles se transformara num relacionamento sério, a longo prazo, e nunca poderia voltar ao flerte e ao namoro simples. Mas ela também não precisaria ser um casamento de fachada, em que a frieza dos gestos cobre com sua pátina os mecanismos da conveniência. Poderia ser – e é nisto que busco transformá-la, e é isso o que me salvou – num constante processo de reconhecimento, num amor maduro, feito pra durar.

Toda luz que toca nossa infância e juventude tem um brilho especial. A memória é um país infinito, uma terra incógnita repleta de magias que não  conhecemos bem. Quando o Coronel Buendía é fuzilado, por algum contra-revolucionário ou coisa que o valha, lembra-se de quando seu pai o levou, ainda criança, para ver o gelo. É a cena que abre o romance, e empresta a ele seu tom mágico, o ruído do instante produzido na memória mesmo pelas fricções mais ásperas da realidade.

Meus melhores desejos e intenções,

Thomaz

P.S.: Já havia começado a escrever esta carta quando recebi a sua. Teremos tempo, no futuro, para conversar sobre o que você disse.

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