Stefano/João;Thomaz #1

Queridos,

Sou simples. Talvez simples não seja a melhor palavra, tendo em vista que o ser humano moderno gosta de se denominar complexo. Eu, no entanto, assumo minha simplicidade. Acredito, pois, que o algoritmo tenha trazido para a condição humano o gracioso ensejo de ser simples; simplório; simplista. Ainda que eu tenha um tom parnasiano nessas todas primeiras linhas, não serei capaz de mantê-lo por muito tempo – não por falta de léxico, mas por falta de vontade: não nasci para o tempo das cartas – essa é a verdade.

Mas vejam só que curioso: animo-me com o escrever ao outro; essa arte de mandar um texto tendo a certeza de que será lido e respondido. Gosto do diálogo, gosto deveras do falar que difere dessa sistemática prece que fazemos na Literatura: o falar para os tetos de bronze do infinito – as palavras ecoam, mas quem as ouve? Ainda assim, ainda com esse desejo pelo diálogo, não nasci no tempo da carta, pois não sei se agüentaria a angústia da demora pelo envelope; ou mesmo o gosto do selo nos lábios. Não sei fazer sem pressa – nada. Nem mesmo escrever. Corro, porque a velocidade faz parte do meu quadrante de subterfúgios.

Não sou, definitivamente, do tempo em que o próprio tempo era uma distância intransponível. Eu, no entanto, sou da era do e-mail; do contato fugaz; das letras que se perdem; das mensagens rápidas; dos sms e do whatsapp. Permita-me o impropério de rasgar os véus da minha linguagem rebuscada com as palavras simples do meu jargão tecnológico – mas não seria sincero fingir usar monóculo quando meus óculos de terceira dimensão se instalam em minha própria face.

Sou cibernético, queridos. E já tive crises com minha condição, já tentei negá-la, no entanto aceito. Carrego essa cruz de bits e subo o Gólgota da web com minha sina de pixels. Sou fugaz, líquido ou contemporâneo – valho-me aqui de referências aleatórias e despretensiosas de filósofos da anunciada e (quiçá) vivida Pós-Modernidade. E então, vejam só, sofro dessa acelerada e constante perda. Qual perda? Perda das minhas próprias filosofias (vãs, ainda) que faço em grupo, aos cântaros, em pequenos diálogos em chats ou mesmo em mensagens de final de ano; de final de amor; de finais em geral. Como eu odeio não ser capaz de retirar da gaveta, permitam-me o saudosismo descabido, as folhas com minha própria caligrafia – ou mesmo a de outros – em longas e longas cartas. A minha própria condição é a lança a perfurar-me o lado direito: quando quero ter-me, já não posso, pois perdi-me em algum passado e em alguns algoritmos.

Coça-me a idéia da espera e da angústia que a carta traz, no entanto chora-me a condição etérea de meus escritos, pois vejam só que apenas dedico-me à escrita em blogs – no momento. Minto: carrego ainda um caderno de poesias e outro de desenhos, mas os desenhos são ainda um treino – quem sabe um dia se tornem algo além disso mesmo – e as poesias são fragmentos meus mesmos; retirados às pressas do cotidiano e, se posso fazer uma comparação desacerbada, diria que me inspiro nos tais Vers de Circonstance de Mallarmé. Portanto, são ainda muito pouco (ou quase nada) do contato que tenho com o mundo, porque se limitam ao que posso dizer e expressar sobre minha própria condição humana; ferida; partida; intacta; ou seja lá qualquer uma das condições que carrego em mim. Perdi-me um pouco em digressões; volto e, sem mais delongas, concluo.

Digo-lhes tudo isso para esclarecer uma questão apenas: ainda que eu não tenha nascido no tempo das cartas – e nem seja capaz de revivê-lo com maestria, gostaria de dizê-los que sou do tempo do e-mail; da multimodalidade; da linguagem mais simples; da própria correria que se imprime na falta de elementos coesivos. Percebam, por exemplo, que me valho dessa incrível invenção do destinatário duplo; múltiplo – possibilitando a cópia, como se fosse possível transcorrer da mesma forma por dois momentos de escrita distintos. Esforcei-me, ainda assim, para escrever um texto na altura dos inaugurais deste sítio, no entanto preciso contar-lhes que meus jargões partirão em retirada com o passo de meu próprio cavalo chamado Sinceridade. Não esperem, portanto, de mim rebuscamento linguístico, mas sinceridade; abertura de alma; acalento; e qualquer coisa de Filosofia feita às pressas.

Feita às pressas: assim como manda o relógio desse meu tempo; nosso tempo. Aliás, tempo de quem mesmo? O passo é nosso, a velocidade com que andamos também. Eu ando rápido porque me compete, mas há quem ande em trote; em galope; em caminhada livre e despreocupada. Não sei, de fato, a melhor opção.

Mas veja só: por ser uma carta – ainda que cibernética carta mandada aos quatro cantos da Web, há um registro. Daqui um tempo, quando me debruçar outra vez sobre essas palavras, provavelmente sorrirei discreto (e por que não timidamente chorando?) ao relembrar que previ esse encontro de tempos. De fato, estamos subvertendo as regras: enquanto o passo da Internet é veloz e desenfreado, abrimos uma fenda atemporal para as palavras subsistirem. Somos anti-heróis, quem sabe; ou não somos nada. Aliás, ser nada é condição sine qua non para ser dono também de todos os sonhos do mundo. Esse é um sonho: ser eterno. E seremos; ou melhor: estamos sendo – porque a eternidade é um gerúndio. Permitam-me essas filosofias como desfecho ou como início de minha estadia neste lar.

Não sei se há respostas para essa carta, mas espero qualquer comentário que me venha de encontro; e me permita, por fim, retirar de minha escrita as letras capitais – as quais me doem nos olhos, na alma e na escrita. Gosto da linearidade da minúscula, porque não entendo nenhuma palavra como mais importante do que as outras. Mas isso é tema para outro momento, encerro-me por aqui: cansado e indo dormir; depois de gastar-me para escrever um texto digno de ser posto num envelope e atravessar um oceano, um continente, uma cidade ou, até mesmo, apenas algumas telas de computador.

Com açúcar, com afeto,

S.

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