João/Thomaz #4

Thomaz,

Você tem razão: passei por cima do assunto dos textos curtos como se fosse óbvio; como se já o tivéssemos discutido antes.

As suas descrições dos tipos de extensão são reveladoras. Apreciamos a concisão sem precisar aprender, sem precisar explicar. Seu valor é tomado como evidente por nós. O que você fez foi esclarecer o que não se deve confundir com concisão — um estágio intuitivamente posterior ao da discussão sobre o que ela é. O prazer do desenvolvimento e do fôlego, entretanto, precisa ser resgatado, justificado e homenageado.

O fato é que o texto sobre a obra de arte, que chamamos de crítica, é tão diverso em suas possíveis formas e propósitos quanto a própria arte que descreve, senão mais. Às vezes escrevemos para explicar, descrever, classificar uma obra ou uma experiência de leitura (como o C. S. Lewis); às vezes buscamos suscitar novamente as emoções, sentimentos, sensações ou o que se tenha experienciado no momento da apreciação (recordo-me agora dos românticos: Hoffman, Goethe etc.); há quem simplesmente elogie os “gênios” sem parar (Bloom). E por aí vai. Aceitamos tranquilamente que as ciências, que são conjuntos de textos sobre a natureza, nos levem a construir um colisor de hádrons de 27 quilômetros de diâmetro para encontrar o bóson de Higgs (que é o quê, mesmo?). Essa é a versão “ciências da natureza” do Golden Bough. Se compreendemos isso, podemos, pois, aceitar igualmente os comentários sobre obras de arte que são maiores do que as próprias obras.

Em um texto do seu blog você disse que nós e as obras de arte somos constituídos das mesmas coisas. Achei uma ideia muito interessante. Tanto a vida como a arte são feitas de acontecimentos, sensações, tempo, sonhos e desejos, etc. É muito mais fácil entender esse fenômeno dos comentários maiores que o original se pensarmos nas obras que os motivam dessa maneira. Acredito que muito da crítica, no fundo, trata dessas coisas. Não há dúvida que muitas delas comportariam uma vida toda de discussões. E a concisão, destaco de sua carta, só é mais forte quando é síntese de tudo isso.

Mas agora você me deixou curioso: o que o “preto no branco” tem a ver com Game of Thrones?

Efusivamente,

João G.

[Em resposta a: Thomaz/João #3]

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