Thomaz/João #3

João,

Interessante isso que você falou a respeito de textos curtos sobre obras longas. Isso se insere naquela velha discussão sobre o “tamanho ideal” de uma obra de arte. Porque se as obras podem ser longas ou breves, porque a crítica também não poderia ser? Afinal, há valor tanto no fôlego quanto na concisão.

Acho que é o Frye (olha ele aí de novo) que comenta sobre análises formais de obras que acabam sendo muito mais longas do que as próprias obras. Acho esse um fenômeno curioso, independente de ser válido ou não. Por outro lado, não é raro encontrarmos por aí livros, filmes, séries de TV ou quadrinhos intermináveis, que emprestam todo um novo sentido ao dito latino “A arte é longa e a vida é breve” .

Quantas vezes, porém, não é possível se perder no vulto de um livro imenso, que nos traga irresistivelmente? Como é delicioso perder-se num romance cheio de gorduras, como uma picanha. Que graça teriam sem elas? O romance é a picanha da literatura – sim, Thomas Pynchon, meu quasi-xará e obsessão, estou olhando pra você. A própria digressividade tem o seu valor. O Frazer escreveu o The Golden Bough a partir de uma pesquisa muito simples e específica à primeira vista. Ele só queria entender um ritual de sucessão meio esquisito de sacerdotes de um templo de Diana próximo a uma lagoa no norte da Itália. Acabou escrevendo doze volumes. Percebendo que tinha ido um pouco longe demais, o Frazer condensou a obra para um tamanho mais palatável: 600 páginas. Vejo essa história como exemplo de um processo que aprendi a admirar: ao contrário de deparar-se com a vastidão do Universo e chamar a Terra de grão de areia – como parece ser a tendência mais recente -, tomar um grão de areia e ser capaz de ver, nele, a Terra. É o que o Proust faz, não é? Crescer de dentro. É construir uma catedral e fazê-la projetar a Criação. É perder-se num pasto que carece de fronteira… É aion, aquela palavra grega que denomina o tempo sem fim, a Eternidade.

Por outro ladro, a brevidade é o kairos, o instante oportuno, a epifania momentânea, a clareza repentina que, breve que é, logo desvanece. Brevity is the soul of wit, escreveu o britânico Shakespeare, e nada mais britânico do que esse wit, essa inteligência aguda e precisa que só a concisão permite. Antípodas a eles estão os Orientais, Chineses antes de tudo, cujo pensamento-língua-escrita (conjuntos que são), profundamente imagéticos, também nos atingem com a pressão de uma força imensa dirigida para uma área muito pequena. Porque concisão é isso, concentração, densidade, o que automaticamente exclui todas as tentativas que, disfarçadas pela brevidade, aspiram à concisão, enquanto são somente frouxas, preguiçosas, pouco refletidas, pouco tralhadas.

Assim o que é imenso pode iluminar o pequeno fazendo-o recuperar sua força que se ocultara nas elipses e omissões; e o que é breve pode iluminar o grande, condensando-o e permitindo ver até onde vai o seu alcance.

Pensava falar sobre essa questão do “preto no branco” e o que isso tem a ver com nossa amada série Game of Thrones, mas já me estendi o suficiente para um dia, e não desejo que minha carta entre (como já entrou a obra de George R.R. Martin) para os anais da História do breve e do longo. Deixemos esses pensamentos para depois.

Com isso me despeço, com saudações cordiais.

T.

[Em resposta a: João/Thomaz #2]

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