João/Thomaz #2

Meu caro amigo Thomaz,

Como fico feliz em receber sua carta! Concordei, no domingo, que a ideia de uma correspondência pública era extremamente pertinente e, na nossa situação, momentosa: reafirmo, com a ideia materializada, a minha empolgação em levar isso adiante.

Nestes nossos primeiros passos, vamos enfrentar, é claro, o constrangimento da autoconsciência. Confesso que esse monstro, que já me importuna em textos bem mais distanciados, veio aqui arrebatar todo o meu processo de escrita do assunto à linguagem — mas a companhia e o apoio de nossos amigos nesse projeto, um pouco de insistência, mente aberta e (por que não?) sorte podem nos trazer consideráveis recompensas muito em breve.

Para fugir do monstro, então, vamos falar de coisa boa. Continuei trabalhando naquele comentário à filmografia de Miyazaki sobre que conversamos, e em breve te envio um update com os próximos três filmes: KikiNausicaa e o tão esperado Ponyo. Estou enfrentando a pequena frustração de que meus filmes favoritos do diretor, como exibem mais obviamente o tema que venho tentando mostrar, resultam em comentários menores. Lembro-me das suas “pílulas cinematográficas” e listas em que incluía vários livros ou filmes de uma vez. Você já deve ter passado por essa situação, não?

Mas bem, o que queria mesmo dizer é que percebi outra falta nos comentários sobre ele: quando falam da moralidade de seus filmes, dizem apenas que ela não é “preto no branco” e dão o assunto por encerrado. Ora, isso não é muito diferente de dizer que seus protagonistas não se encaixam no padrão hollywoodiano: a afirmação continua sendo “hollywood-cêntrica”. É verdade que seus personagens não personificam concepções heroicas de bom e mau, mas isso não significa ausência de valores: o universo Miyazaki tem uma moral bem nítida, e o núcleo desta moral está nas ações conciliatórias dos protagonistas. É uma moral pacifista, igualitária e, em certo sentido, conservadora (se lembramos a luta pela preservação do myth of concern de Frye).

Não sei o que você acha disso, mas pretendo ainda encaixar essa ideia em algum lugar no meu texto, provavelmente na seção sobre Chihiro. Sinto que meu comentário pequeno sobre esse filme pode frustrar alguns fãs que porventura venham a acessar o texto em busca dele só. E o comportamento dos deuses no filme é propício a essa adição.

É, acho que consegui dizer o que queria. Evidentemente que muitos outros assuntos agora assomam em minha mente, mas não vamos esgotá-los em uma só troca de cartas. Escrevê-las, afinal, está me surpreendendo em sua agradabilidade.

Repito o apelo porque é sincero: anseio pela resposta!

Abraços,

João G.

[Em resposta a: Thomaz/João #1]

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